Uma situação a que estão expostos todos aqueles que trabalham com andragogia, como por exemplo quem está aplicando um curso de pós-graduação ou um treinamento gerencial, é a interrupção do processo normal de aula por uma reclamação de um treinando sobre o curso como um todo. Isto acontece através de frases tais como: “A sua aula é muito boa, mas o curso, como um todo, não está atendendo as minhas expectativas” ou “Os exemplos dados são de diversos segmentos, mas só me interessam informações do segmento onde atuo”, ou ainda “Há assuntos que se repetiram ao longo das diversas disciplinas do treinamento”. As frases evidenciam que há uma insatisfação da pessoa com algo no treinamento; mas certamente este algo não tem relação com o conteúdo do curso. Por que se pode fazer esta dedução?

Porque não parece fazer muito sentido:

  • A pessoa não reclamar do curso como um todo, para o seu coordenador ou para a ouvidoria da instituição, formalmente, mas apenas desabafar com o docente de uma determinada disciplina sobre assuntos que ela sabe que este interlocutor não terá poder ou autonomia para modificar;
  • A pessoa afirmar que não deseja conhecer como os players de outros segmentos (os chamados benchmarkings do mercado) fazem de forma mais eficiente, aquilo que ele e sua empresa também fazem;
  • A pessoa não desejar conhecer determinado assunto, cozinhar por exemplo, por vários ângulos: o do cozinheiro que prepara os pratos; o do chef que cria os pratos; o do garçom que ouve os depoimentos dos clientes sobre os pratos; o do dono do restaurante que define que pratos serão servidos aos clientes. E ainda afirmar que o tema, por mais importante que seja, deveria ter sua apresentação restrita a um só momento.

Então por que foram colocadas as reivindicações e qual a sua real causa? A motivação para as colocações muitas vezes inoportunas, mas fartas em convicção, não se encontra na reclamação em si, até porque uma pessoa mais diligente, de forma adequada, consegue fazer o instrutor falar de temas que nem estão na ementa, mas que são de seu interesse. A motivação para as proposições está na forma com que cada pessoa entende o caminho para trocar informações através da energia psíquica.

Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica, baseou seus estudos da energia psíquica (JUNG, 1999) em dois princípios da física newtoniana, que ele adaptou ao ambiente da psique humana: o Princípio da Equivalência e o Princípio da Entropia.

O Princípio da Equivalência

Em Física, o Princípio da Equivalência declara que a energia consumida para provocar determinada condição reaparecerá em outro lugar do sistema. Aplicando esta teoria ao funcionamento psíquico, Carl Jung afirma que se um valor específico enfraquecer ou desaparecer, sua energia, neste caso o valor, não será perdido, mas reaparecerá em um novo lugar. Como exemplo pode ser citado que quando uma pessoa se desinteressa por um assunto ou um relacionamento, descobrirá outro que o substitua (COLOMBO, 2017). Trazendo este princípio para a situação do treinamento: se a empolgação e compromisso do treinando se esvaziar pela decepção da adequação do curso às suas necessidades, a energia retirada desta direção, pode acabar sendo focada nas críticas e até mesmo na destruição do que o curso está construindo.

O Princípio da Entropia

Ainda na Física, o Princípio da Entropia estabelece que quando dois corpos de temperaturas diferentes são colocados em contato, o calor do corpo mais quente vai passar para o corpo mais frio, estabelecendo um equilíbrio de forças. O corpo mais quente perde energia para o mais frio, até que os dois atinjam a mesma temperatura. Aplicando esta teoria ao funcionamento psíquico, Jung percebeu que a distribuição de energia na psique humana busca um equilíbrio. Ou seja, se dois valores tiverem forças desiguais, a energia tende a passar do valor mais forte para o mais fraco, visando atingir o equilíbrio. “Embora um equilíbrio permanente de forças na personalidade jamais possa ser atingido, esse é o estado ideal almejado pela distribuição de energia”. (HALL, LINDZEY, CAMPBELL, 2000, p. 98). Aplicando o princípio ao caso do treinamento: se um tema vem sendo desenvolvido pelo docente e parte dos treinandos acompanha com grande atenção e energia, aqueles que não estão mais interessados neste movimento podem tentar desviar o fluxo desta energia para uma discussão de posições (docente X discentes), esfriando o calor do aprendizado de um tema e transferindo este calor para um debate sobre a validade do próprio curso, assunto menos importante naquela hora de aprendizado dos conceitos e práticas de uma de suas disciplinas.

Conhecendo as trocas de energia através dos Tipos Psicológicos de Jung

Jung propõe que o tipo psicológico de um ser humano é uma atividade da psique que apresenta uma consistência interna, sendo uma atribuição congênita, que estabelece habilidades, aptidões e tendências no relacionamento do indivíduo com o mundo e consigo mesmo. Ele definiu estas funções como: Sensação, Intuição, Pensamento e Sentimento. A combinação de cada uma delas com as atitudes de extroversão, onde existe uma objetividade, e onde o indivíduo foca sua atenção no ambiente externo; e de introversão, responsável pela atitude subjetiva, direcionada para o mundo interior e para os processos internos da pessoa, forma o conjunto de Tipos Psicológicos de Jung (JUNG, 1991).

  • Sensação: Pessoas deste tipo psicológico acreditam nos fatos, têm facilidade para lembrar-se deles e dão atenção ao presente; têm enfoque no real e no concreto e costumam ser práticas e realistas. Preocupam-se mais em manter as coisas funcionando do que em criar novos caminhos (LESSA, 2017).
  • Intuição: Ao contrário dos movidos por sensações, a percepção das pessoas intuitivas se dá através do inconsciente, e o entendimento do ambiente acontece por meio de pressentimentos, palpites ou inspirações.
  • Pensamento: As pessoas deste tipo psicológico fazem uma análise lógica e racional dos fatos; julgam, classificam e discriminam uma coisa da outra sem maior interesse pelo seu valor afetivo; se orientam por leis e regulamentos e procuram ser imparciais em seus julgamentos.
  • Sentimento: Pessoas com esta função psíquica aceitam ou rejeitam uma ideia tendo como base o sentimento agradável ou desagradável que tal ideia suscita; têm facilidade no contato social, preocupam-se com a harmonia do ambiente; mas, normalmente tomam decisões baseadas em seus próprios valores pessoais.

Portanto, as reclamações apaixonadas geradas num contexto onde não há pressão, mas ao contrário, há aprendizado, trabalho, ou convívio pacífico, talvez tenha sua origem num comportamento psíquico de pouco equilíbrio entre os diversos tipos de Jung, com alta predominância da intuição e do sentimento. Um possível antídoto a ser aplicado pelo docente para neutralizar estas situações, normalmente geradoras de disputa e discórdia, que contaminam o clima do bom ambiente, poderia ser uma combinação das seguintes atitudes e ações, visando o reequilíbrio psíquico do gerador:

  • Adotar uma postura conciliadora de escuta ativa;
  • Solicitar maior detalhamento e especificidade da reclamação;
  • Admitir a validade de, pelo menos, parte do pleito;
  • Esclarecer a impossibilidade prática da parte inconsistente da reivindicação;
  • Apontar, de forma clara, mas pacífica, o responsável em tratar tal reclamação;
  • Assumir o compromisso de enviar a questão aos canais competentes;
  • Agradecer a contribuição recebida.

Referências

COLOMBO, Eliane F. Princípios da Equivalência e da Entropia. In: Blog Estudos da Psi. Disponível em http://estudosdapsi.blogspot.com.br/2012/05/principios-da-equivalencia-e-entropia.html. Consultado em 15/01/2017.

HALL, Calvin S.; LINDZEY, Gardner; CAMPBEL, John B. Teorias da Personalidade. Porto Alegre: Artmed Editora, 2000.

JUNG, C. G. A Energia Psíquica. Petrópolis.  Petrópolis: Editora Vozes, 1999.

JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Editora Vozes, 2001.

JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Editora Vozes, 1991.

LESSA, Elvina. A Teoria dos Tipos Psicológicos. In: Site do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro. Disponível em http://www.jung-rj.com.br/artigos/tipos_psicologicos.htm. Consultado em 16/01/2017.

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