por Ciro Mendonça

Falar e escrever sobre sustentabilidade nos dias atuais tornou-se algo arriscado. O tema entrou na moda e é preciso estar atado ao mastro para não sucumbir ao canto das sereias comportando-se como uma espécie de greenwashing, termo pejorativo que significa algo como ecobranqueamento ou alvejamento ecológico, que nada mais é do que a prática de pessoas a serviço de empresas ou governos utilizando estratégias de marketing para seduzir a opinião pública. A moda é essencialmente efêmera e por isso não combina com sustentabilidade, algo que deve ser introjetado na alma das pessoas para, em seguida, ser legitimado como um novo valor na sociedade, a exemplo do que ocorreu com a ética ou a luta contra a discriminação racial, que hoje já conta com instrumentos legais que permitem punições.

Nesse sentido, o mérito e o risco do pioneirismo vão para a bióloga norte-americana Rachel Carson que em 1962 escreveu o clássico “Primavera Silenciosa”, despertando a atenção da sociedade para preocupações ambientais sem precedentes ao levantar os problemas causados pelos pesticidas sintéticos.

Outro trabalho seminal foi o relatório “Os Limites do Crescimento” produzido em 1972 pelo Clube de Roma, grupo de estudiosos comissionado pelo MIT que, rotulado como excessivamente alarmista pelos críticos da época, teve seus prognósticos confirmados por sofisticados modelos computacionais disponíveis cerca de 30 anos depois.

Em passado não muito distante, o Departamento mais problemático das Prefeituras era exatamente o responsável pela coleta do lixo, situado invariavelmente no fundo dos corredores, integrado por funcionários com baixíssima auto-estima e frequentemente às voltas com casos de alcoolismo. Ademais, obter patrocínio de empresas nesta área era tarefa praticamente impossível.

O cenário atual mudou radicalmente e o exemplo emblemático é o sucesso midiático de Tião Santos, dublê de ator e líder da Cooperativa de Catadores e Recicladores de Lixo de Jardim Gramacho, estrela do premiadíssimo documentário “Lixo Extraordinário”.

No que tange ao patrocínio, as empresas, agora, disputam acirradamente espaço para terem sua logomarca estampada nas caixas coletoras de lixo espalhadas nas principais vias das grandes metrópoles, ávidas por terem sua imagem associada à questão ambiental. A despeito desta maré favorável, que não pode ser desperdiçada, incrustar a sustentabilidade no coração das pessoas não será uma tarefa trivial porque implica em mudança radical de cultura, de hábitos e valores que necessitam ser persistentemente cultivados no lar, nas escolas e comunidades e que, infelizmente, não conta, ainda, com o apoio das diversas mídias. Ao contrário, os diferentes meios de comunicação, utilizam técnicas eficazes e perversas de persuasão, pois sabendo que há um limite para a capacidade de consumo das pessoas, passaram a investir em seus sonhos, cuja natureza é ilimitada.

Como são as pessoas que lideram as corporações e formulam as políticas públicas ao assumirem cargos no Governo, só haverá sinceridade de intenções quanto à luta pela sustentabilidade quando aquelas estiverem realmente convictas que não há outro caminho a seguir para assegurar o melhor futuro para o nosso Planeta, bem como para todos os seres vivos que nele habitam.

Em entrevista publicada no ano passado, o economista Armínio Fraga, ex- presidente do Banco Central declarou que a questão ambiental ocupa, atualmente, a 5ª posição na escala de preocupações da maioria das empresas do País. Esta triste constatação, apenas corrobora que, educar e sensibilizar as pessoas, notadamente os executivos, constitui o primeiro passo e necessidade imperiosa para que possamos disseminar e enraizar nas Corporações o relevante tema da sustentabilidade.

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