por Samir de Oliveira Ramos

Em busca de liberdade

 A SÍNDROME DE ESTOCOLMO EMPRESARIAL

A Síndrome de Estocolmo é um estado psicológico particular desenvolvido por algumas pessoas que são vítimas de sequestro. A síndrome se desenvolve a partir de tentativas da vítima de se identificar com seu captor ou de conquistar a simpatia do sequestrador. No final de um convívio prolongado a vítima tende a defender e até a se identificar com seus captores.

Questões Acadêmicas

De vez em quando um aluno de pós-graduação interpela o professor, geralmente os que aplicam disciplinas sobre os 4P da gestão empresarial (Planejamento, Processos, Pessoas e Projetos), com o seguinte argumento: “O que está sendo ensinado é muito bonito na teoria, mas não se aplica no dia a dia do trabalho”.

Geralmente esta interpelação acontece de forma bastante peremptória e com um tom de crítica aos ensinamentos que não retratam a triste realidade de algumas empresas no mercado. Interessante é que este mesmo profissional reclama de seus superiores na empresa por não agirem de forma planejada; por modificarem a toda hora suas tarefas, objetivos e metas; por não reconhecerem o bom desempenho de seus subordinados; por não trabalharem horizontalmente, com seus pares ou parceiros. Esta atitude contraditória parece uma Síndrome de Estocolmo Empresarial.

Uma das funções da academia é pesquisar, construir e testar em campo métodos de melhoria de todas as atividades no planeta que envolvem os seres humanos. Em especial, no que concerne aos quatro P da gestão, um acréscimo de eficiência nas atividades de uma organização com consequente melhoria nos resultados da empresa (eficácia), através de soluções que consigam ir além das óbvias e já desgastadas fórmulas como o aumento do número de horas trabalhadas, as demissões em massa para posterior contratação de pessoal de menor custo, deveriam ser extremamente bem vindas, especialmente por aqueles que sofrem o efeito destas metodologias pouco inovadoras, e que procuram os cursos de pós-graduação das escolas de negócios para se habilitarem a uma sucessão gerencial. Contudo, uma espécie de Síndrome de Estocolmo Empresarial parece enturvar a visão de alguns destes profissionais-alunos.

Julia Layton, Redatora-chefe do site Howstuffworks, em seu artigo “O que causa a síndrome de Estocolmo?” (2012), relata que a fim de que a síndrome de Estocolmo possa ocorrer em qualquer situação, pelo menos três traços devem estar presentes:

  • Uma relação de severo desequilíbrio de poder na qual o raptor dita aquilo que o prisioneiro pode e não pode fazer;
  • Ameaça de morte ou danos físicos ao prisioneiro por parte do raptor;
  • Um instinto de autopreservação de parte do prisioneiro

Ora, se estas três condições forem apreciadas à luz de um ambiente empresarial desumanizado, é possível que, em casos de pessoas menos resilientes, estes três fatores estejam presentes:

  • Uma relação de poder baseada na coerção
  • Uma constante ameaça de perda do emprego que é o meio de sustento da família
  • Um instinto de autopreservação do empregado

No mesmo artigo, Julia descreve o processo de domínio da vontade do prisioneiro durante o sequestro, em quatro passos:

  • Em um evento traumático e extraordinariamente estressante, uma pessoa se vê prisioneira de um homem que a ameaça de morte caso desobedeça;
  • …Compreender o que poderia deflagrar atos de violência de parte do raptor, para evitar esse tipo de atitude, se torna uma segunda estratégia de sobrevivência. Com isso, a pessoa aprende a conhecer quem a capturou;
  • Um simples gesto de gentileza de parte do raptor, que pode se limitar simplesmente ao fato de ainda não ter matado o prisioneiro, posiciona o raptor como salvador do prisioneiro;
  • O raptor lentamente começa a parecer menos ameaçador – mais um instrumento de sobrevivência e proteção do que de dano.

Guardadas as devidas proporções, trocados os papéis do sequestrador para um gerente coercivo e do sequestrado para um empregado pouco resiliente, e mudada a ameaça de morte para uma ameaça de desemprego, pode-se começar a entender o porquê da atitude de alguém que paga um alto valor a uma business school para buscar novas formas de desenvolver seu trabalho, e reage de forma impugnatória quando os métodos sugeridos diferem de sua realidade profissional. A única maneira de aplacar, e mesmo assim em parte, este tipo de reação é mostrando cases de empresas bem sucedidas, que já utilizam a metodologia lecionada.

Droctulft foi um guerreiro lombardo que, no assédio de Ravena, abandonou  os seus e morreu defendendo a cidade que antes havia atacado. Os ravenenses sepultaram-no num templo e compuseram um epitáfio em que manifestavam sua gratidão: “Ele desdenhava seus queridos pais, enquanto nos amava, considerando que Ravena era sua pátria. Ele tinha um rosto cuja visão provocava o terror, mas tinha um espírito benigno; longa barba cobria seu peito robusto”.

A história do Guerreiro e da cativa.

Jorge Luís Borges 

 

Mercado popular, outono de 2012. Os olhos do menino Basir estavam vidrados no rosto de Ahmed, um velho mercador de tapetes em Istambul. Sentados em banquinhos estofados, abaixo do nível do balcão, do lado de fora da loja, observavam o ir e vir apressado das pessoas, enquanto o velho contava a história dos sultões ao menino. Ao centro, uma mesinha redonda decorada com um mosaico prateado e azul continha o chá da tarde.

– As gaiolas douradas existiram mesmo, senhor Ahmed?

– Com toda certeza, meu rapaz. Você ainda é muito jovem para compreender estas coisas. Talvez quando ficar mais velho…

Basir era filho do seu amigo Yeter. Ahmed e Yeter ficaram viúvos ainda jovens.  Suas esposas morreram num mesmo acidente de ônibus, quando vinham de Çavusin[1], um lugarejo nos arredores da Capadócia.

O velho contador de histórias não tinha filhos e não se casou mais. Já o seu melhor amigo casou-se mais uma vez, muitos anos depois. Deste matrimônio nasceu Basir. A segunda esposa morreu ao dar à luz ao menino. Desde então, Yeter se entregou à bebida. Ahmed tentava ajudar na criação, a pedido do serviço social, que ameaçava enviar Basir a um orfanato, caso o pai não se tratasse do alcoolismo.

O menino estava com sete anos e era muito esperto e inteligente. Todas as tardes, após a escola, passava na loja do vendedor de tapetes, enquanto o pai tentava arranjar emprego.

– Os sultões eram tão poderosos assim, senhor Ahmed?

– Alguns sim, Basir. Como Osman.

– Quem era Osman?

 E então o velho Ahmed, esfregando os bigodes e a barba, bochechou e engoliu um gole de chá e passou a discorrer sobre a história dos primeiros sultões e o surgimento do fabuloso império otomano.

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente…

Soren Kierkegaard

Os turcos otomanos[2] eram um povo nômade, proveniente das estepes que ficavam além do mar de Aral. Em suas muitas andanças, acabaram encontrando as terras da atual Turquia – boas para o pastoreio -, permanecendo nelas por longos anos.  Foi durante esta permanência que acabaram tendo contato com os sultões muçulmanos.

Conta a história que, dos lombos dos velozes cavalos e dos sonhos de conquista deste povo nômade, surgiu um lendário senhor de guerra chamado Osman Bey.

Naquele primeiro momento, Osman não tinha a mínima noção do que estava criando: uma dinastia digna dos melhores livros de história, uma descendência poderosa que iria dominar o epicentro, o ponto nevrálgico de ligação entre três grandes continentes: o europeu, o asiático e o africano.

Os seguidores de Osman ficaram conhecidos como otomanos. Bravos e corajosos, nunca pensavam em si próprios. Sempre que se encontravam em situações de extremo perigo, enfrentavam-nas com grande determinação, enorme entrega e contagiante desejo de conquista. Desta forma, o império otomano ficou conhecido como destemido, entrando em regiões onde ninguém havia entrado antes.

Os otomanos consideravam-se “guerreiros para a fé” ou ghazis, cuja missão era trazer o islã[3] ao mundo. Sua direção de expansão era inevitavelmente o ocidente, ou mais especificamente os territórios cristãos no ocidente, uma vez que as outras direções eram ocupadas por irmãos seus. Diz o Alcorão[4] que um muçulmano nunca deve lutar contra outro muçulmano.

Neste ímpeto expansionista, o império otomano não teve dificuldade em derrotar o já combalido império bizantino, uma vez que os cruzados, no seu caminho de terror e destruição rumo a Jerusalém, já tinham saqueando várias cidades, reduzindo este império de 1000 anos a alguns pequenos estados em guerra. Era o fim de uma era para o outrora orgulhoso Império Bizantino.

Com este cenário, os guerreiros de Osman derrotaram facilmente estas divididas facções bizantinas na Eurásia, unindo o noroeste da Anatólia num único domínio.

No ano de 1326, os otomanos conquistaram a poderosa cidade bizantina de Bursa e a estabeleceram como sua capital. Osman e seus descendentes agora possuíam um local fixo para seu governo. Daquele momento em diante, os inquietos guerreiros das estepes deixavam de ser nômades e passavam a se estabelecer para a construção do seu império[5].

Os otomanos[6] agora tinham um novo desafio: administrar a vasta região que conquistaram. Diferentemente de outros povos nômades, eles ficaram conhecidos por terem absorvido, sintetizado e algumas vezes até aperfeiçoado os elementos culturais das terras por onde passaram. Neste sentido, criaram estruturas que permitiam que as pessoas que viviam antes nas terras conquistadas pudessem continuar as suas vidas e convicções da maneira que quisessem[7]. Desta forma, os otomanos tinham menos conflitos com os seus súditos cristãos do que com aqueles que professavam a mesma fé.

O rosto de Ahmed estava agora bem próximo ao de Basir. Podia sentir sua respiração ofegante. Ele sempre fazia isso quando queria dar um tom dramático à sua narrativa. O menino estava imóvel, com as mãos apertadas entre as pernas e os ombros encolhidos. Ahmed adorava aquelas tardes com Basir. Aos poucos iam se conhecendo mais e mais. Tinha-o como a um filho.

Um dos problemas de administração que os otomanos tiveram que enfrentar foi que ainda havia antigos reinos muçulmanos rivais ao seu redor, ou seja, tinham sido conquistados pelos otomanos, mas ainda lhes guardavam rancor. Estes adversários muçulmanos tinham intenção de desafiar o poder otomano.

Com receio de que estas velhas famílias criassem uma rebelião, acharam mais prudente recrutar para o seu exército pessoas de outras etnias, que não estivessem ligadas a qualquer família muçulmana rival.

Então entraram nos Balcãs[8] e recrutaram crianças, principalmente crianças cristãs. Esta prática ficou conhecida como devshirme.

Os jovenzinhos eram tecnicamente escravos do sultão, mas não eram tratados como tal. Primeiramente, eram apresentados à fé muçulmana. Participavam de rituais diários de lavagem e orações, e aprendiam as línguas árabes otomanas.

Em seguida, recebiam a melhor educação possível disponível no mundo, naquele tempo. Com isto, tinham a possibilidade de alcançar os mais altos cargos de poder no império. Os que demonstravam maior inteligência iam para as escolas do palácio e formavam-se em diferentes níveis de vizires e governadores. Os que se destacavam ainda mais chegavam a se tornar grão-vizires.

Através do sistema devshirme os otomanos puderam criar uma casta sem conflitos de lealdade entre tribos ou famílias. O sistema era tão perfeito que eles só tinham uma aliança: com o sultão. Não havia família, região, nem quaisquer outros laços.

Estas crianças tinham um futuro tão promissor e radiante que muitas vezes os turcos, ou até os muçulmanos, fingiam que seus filhos eram cristãos de nascença, registrando-os para que pudessem ser levados pelos oficiais do palácio. Os que eram fisicamente mais fortes iam para o corpo de janízaros: a infantaria de elite do sultão[9].

Treinados como verdadeiras máquinas militares – com toda a disciplina, precisão e rigor, dignas dos melhores e mais modernos exércitos -, os janízaros não tinham medo de morrer, eram totalmente destemidos. Seu único objetivo era servir o sultão. Tornaram-se a tropa de elite mais temida do mundo ocidental, uma força à altura deste novo império islâmico e das suas ambições de conquista.

A história foi interrompida pela chegada de clientes. Ahmed levantou-se rapidamente e passou a dirigir-se ao casal de turistas que queria saber o preço em dólares de alguns tapetes. Antes de revelar-lhes o valor, o velho começou a descrever em detalhes o processo de fabricação, desde a escolha da lã e dos pigmentos para a tintura até as mais artesanais e milenares técnicas de tecelagem. Só então ele respondia com outra pergunta, olhando no fundo dos olhos dos seus clientes:

– Quanto você acha que custa esse trabalho tão primoroso, capaz de produzir essa peça sem igual?

Basir ajudava a abrir e enrolar os tapetes. Conforme Ahmed lhe havia ensinado, não devia haver pressa. Ao mínimo sinal de resistência ou impaciência dos clientes, Basir desaparecia nos fundos da loja e só voltava de lá com a bandeja de chá nas mãos. Negociar tapetes é uma arte – ensinava Ahmed – e deve trazer alegria para quem compra e também para quem vende. É como negociar camelos: deve-se olhar tudo.

Em meados do século XV, a vastidão do império otomano era digna de nota: estendia-se desde a zona onde se situa hoje a atual Turquia, conhecida como Anatólia, até as profundezas dos Balcãs.

Mas havia uma exceção que certamente incomodava o atual sultão. E esta se localizava exatamente no centro desta região. Era, sem dúvida, o maior e mais magnífico troféu que um conquistador podia almejar possuir.

Tratava-se de Constantinopla, a mais magnética, poderosa e rica cidade do mundo. Sua importância econômica e estratégica era inquestionável. Conquistá-la possuía um significado simbólico enorme. Quem almejasse dominar toda a área, teria inevitavelmente de fazê-lo a partir daquela cidade.

Conta-se que o anseio de conquistar Constantinopla foi decretado pelo próprio Maomé. Todos os governantes otomanos, desde Osman[10], tinham desejado conquistá-la, mas a pérola perfeita, a rainha das cidades, tinha-se mantido firmemente em mãos cristãs, mais precisamente nas mãos do moribundo, mas ainda não extinto império binzantino.

Foi então que chegou ao poder um sultão chamado Mehmed, o conquistador. Quando assumiu o comando do sultanato, devido à morte de seu pai, Mehmed tinha apenas doze anos de idade, mas já era bem versado em política otomana. No intuito de afastar qualquer competição pelo poder, mandou estrangular o seu meio-irmão[11].

– Foi neste momento que surgiram as gaiolas douradas, senhor Ahmed? – perguntou o ansioso Basir, levantando-se e colocando as duas mãos nos ombros do velho prosador.

– Allah, Allah! Você é esperto, Basir. A matança de irmãos para evitar disputas pelo trono tem uma relação sim. Você entenderá melhor mais adiante.

– Agora me deixe terminar a história de Mehmed… – complementou.

Em seus dias iniciais como soberano, o jovem Mehmed colocou como objetivo imediato um alvo do tamanho da sua ambição: Constantinopla. A cidade das cidades era como um fruto perfeito à espera de ser  colhido.

Naquela época, Constantinopla não era nem sombra do que havia sido no passado. A população tinha diminuído para meros 50 mil habitantes. Mesmo assim, um exército invasor teria grandes dificuldades em assaltá-la.

Tremendamente fortificada e cercada de água em três lados, a cidade era protegida por um anel triplo de muralhas com cerca de 30 metros de altura e 9 metros de espessura, que já estavam de pé há mais de mil anos.

Além da intrepidez dos seus soldados, a superioridade militar dos otomanos também advinha de sua indústria bélica e do uso sofisticado e inovador que faziam da pólvora.

Os canhões daquela época eram tradicionalmente montados com tiras de metal forjado unidas com aros. Eram capazes de disparar projéteis de pedra com um poder de fogo um pouco maior do que uma catapulta.

Os novos canhões desenvolvidos pelos otomanos eram construídos de bronze sólido que, uma vez enchidos com pólvora suficiente, eram capazes de impelir balas de canhão metálicas com uma força de destruição impressionante.

Assim Mehmed, o Conquistador[12], assinou a autoria do cerco a Constantinopla: com ousadia e inovação. Nunca tinham sido vistos antes daquele dia, canhões com tamanho poder de fogo. Mas esta não era a única surpresa que o jovem sultão reservara aos cristãos para conseguir o seu objetivo.

O estreito de Bósforo tinha um quilômetro e meio de largura e era a única ligação da cidade ao Mar Negro. Se ele conseguisse controlar a passagem de navios em algum ponto, Constantinopla ficaria à sua mercê.

Mehmed então mandou construir, à sombra das muralhas da grande cidade, uma fortaleza de sete torres chamada Rumeli Hisar. Seu objetivo era fechar o estreito. A construção durou menos de quatro meses e conta-se que o próprio Mehmed carregou pedras durante esta audaciosa empreitada.

O primeiro navio que desafiou as suas ordens foi afundado, sua tripulação decapitada e o seu capitão empalado nas muralhas do castelo. Um aviso explícito para navegadores insurgentes.

Enquanto isto, os bizantinos amarraram uma enorme corrente de um lado ao outro do estreito, para impedir a aproximação dos navios de Mehmed. No dia 22 de abril de 1453, Constantinopla assistiu horrorizada à incrível movimentação das tropas de Mehmed as quais, ao se depararem com a corrente, transportaram por terra 70 navios, fazendo-os deslizar sobre tábuas cheias de óleo.

Uma vez vencido o obstáculo, os mais de 100 mil soldados otomanos posicionaram-se diante das muralhas de Constantinopla, prontos para o maior bombardeio que a história da guerra jamais tinha visto.

Digna de nota foi a bravura dos sete mil soldados cristãos os quais, mesmo debaixo de um fogo implacável, mantiveram a posição durante quase um mês. Por fim, já em total desespero, os bizantinos clamaram pela ajuda dos seus aliados cristãos em todo o continente.

A Europa do século XV era completamente incapaz de esboçar qualquer oposição à ameaça turca. Os reis europeus tinham os seus próprios problemas militares e políticos. Constantinopla teria que se defender sozinha.

Pouco antes do amanhecer do dia 29 de maio de 1453, o exército turco rompeu as muralhas da grande cidade. Em questão de horas, Constantinopla estava nas mãos dos otomanos[13].

Mehmed galopou seu puro-sangue pela cidade e dirigiu-se imediatamente à magnífica igreja de Santa Sofia[14]. Certamente os otomanos já tinham entrado em diversas igrejas, mas nunca tinham visto nada igual ao que encontraram.

Santa Sofia – ou Hagia Sophia, como é chamado em turco -, era uma das maravilhas da arquitetura. Tinha a maior e mais alta cúpula da história e era o maior espaço fechado do mundo; possuía inúmeras abóbadas e do seu teto pendiam magníficos candelabros. Estava lindamente decorada com ouro e estupendos mosaicos.

Para Mehmed era um grande troféu. Tão logo o sultão pôs o pé no interior da igreja, ergueu-se uma voz turca, proclamando em árabe, em boa e alta voz, o primeiro Pilar do Islã: “Não há outra divindade, exceto Deus. Maomé é Seu mensageiro”.

A maior igreja da cristandade era agora uma mesquita[15]. E pertencia a Mehmed, o Conquistador[16].

Vitória sem luta é triunfo sem glória.

Provérbio chinês

Yeter chegou à loja de tapetes para buscar o filho por volta das sete horas da noite. Estava com o cabelo e as roupas desarrumadas. Parecia abatido e um pouco tonto. Respondeu rapidamente ao cumprimento do amigo e nem olhou Basir nos olhos. Limitou-se a pegar a mochila do menino e sair andando, enquanto Ahmed, debruçado no balcão, meneava a cabeça e observava o amigo.

– Haydi[17], haydi, Basir. Não deixe seu pai esperando. – gritou o velho para os fundos da loja.

– Até logo, senhor Ahmed. Amanhã conversaremos mais. – respondeu Basir apressadamente, ganhando o corredor do mercado.

– Insallah! (Se Deus quiser!)

Aquela tarde com Ahmed tinha sido perfeita para o esperto menino. Tinham vendido alguns tapetes e ainda por cima conhecido a história de conquistas dos sultões. Sentia-se diretamente responsável pelas vendas, no que era seguido por Ahmed: “Sim, Basir. Sem você eu não conseguiria!”.

Mas agora a realidade lhe batia à porta. Era hora de voltar para a sua gaiola, que não era tão dourada assim.

Você quer ser feliz por um instante? Vingue-se. Você quer ser feliz para sempre? Perdoe.

Tertuliano

Tão logo chegou a casa, Basir começou a preparar o jantar. O pai jogou-se no sofá com uma garrafa de bebida na mão, não sem antes ligar o rádio numa estação que parecia tocar um tango.

– Aqui está, papa. – disse o menino, depois de um tempo, entregando o prato de comida a seu pai.

Após observar por alguns instantes aquele homem amargurado devorar a comida sem atinar para o seu sabor – o qual, diga-se de passagem, era muito bom – perguntou baixinho:

– O senhor conseguiu o emprego?

Basir só teve tempo de se virar e abaixar para que o prato de vidro não se espatifasse nas suas costas.

– Como ousa me questionar, seu moleque? Eu-sou-seu-pai! Eu-sou-seu-pai! Mereço mais respeito. – disse o descontrolado homem, tirando o cinto e partindo bêbado para cima do garoto.

Numa primeira investida a fivela atingiu-lhe o rosto, bem perto do olho, causando logo uma bolha de sangue. As demais chibatadas pegaram nas costas e braços. Foram desferidas cada vez com mais força, até o pai não conseguir mais. Basir procurava chorar baixinho para que os vizinhos não denunciassem seu pai. As marcas no corpo doíam menos que as marcas na alma daquela criança. Yeter descontava no filho todas as suas frustrações. Chegava a lhe culpar pela morte da esposa.

Julgue o homem pelas suas perguntas, não pelas suas respostas.

Voltaire

A quarta-feira era um dia de grande movimento no Grande Bazar[18], também chamado de mercado árabe. Naquele dia Basir, por algum motivo, não tinha aula e podia chegar cedo à loja do seu Ahmed. Tão logo fez suas orações, arrumou a bagunça do dia anterior e partiu para o mercado. Em seu trajeto pôde avistar meninos vendendo os tradicionais kebabs de rua (de boi e de carneiro) na porta do suntuoso palácio Topkapi, antiga morada dos sultões.

Já dentro do mercado, andando rapidamente pelas ruelas que formam um verdadeiro labirinto, num ritmo difícil de acompanhar para maiores de trinta primaveras, pôde ouvir aos gritos as ofertas do artesanato local: tapeçarias, olaria e cerâmica, joias berberes em prata, perfumes em frascos de cristal, narguilés, pufes em pele, especiarias e babuchas. Também podiam ser avistados os habituais trajes de harém, coletes bordados, escorpiões embalsamados, fósseis, conchas, pérolas africanas, lenços e bandanas.

Desta vez Basir não passou na confeitaria, como sempre fazia. Foi direto para loja.

Todos os erros humanos são impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico.

Franz Kafka

 Ahmed, sempre que percebia o garoto cabisbaixo e com hematomas, tinha um jeito especial para lidar com a situação. De início não se aproximava muito, limitando-se a conversar com o garoto à distância, sem fitá-lo nos olhos, respeitando a sua vergonha.

– Basir, eu já lhe disse para tomar cuidado com este balcão!

– Sim, senhor Ahmed. Eu acabei arranhando o rosto na quina dele. Sou muito distraído…

– Também lhe disse para prestar atenção nos tapetes, Basir.

– Acabei tropeçando, senhor. Machuquei os braços e as costas, mas a dor não é tão grande assim. Maior é Alá, o que sabe mais. Vou prestar mais atenção da próxima vez.

Aquelas palavras aconchegantes, cheias de cumplicidade e carinho, pronunciadas quase em tom de brincadeira, na dinâmica do trabalho, chegavam por reflexão aos ouvidos de Basir. Nunca eram ditas em sua direção, antes percorriam os ares e eram amainadas na superfície dos tapetes, perdendo a rudeza que lhes era própria.  Ditas ainda no frescor da manhã, pareciam ser o perfeito bálsamo para a cura de suas feridas.

Em dias como aqueles, a atuação de Basir na loja se restringia a trabalhos internos: arrumar e varrer o almoxarifado, organizar as fichas dos clientes e etiquetar novos tapetes. Ahmed sabia que se alguém do serviço social visse o menino naquelas condições, seu amigo perderia a guarda do filho e seu amiguinho poderia ir para um orfanato.

Com muito tato, Ahmed ia aos poucos se aproximando de Basir, sem pronunciar qualquer palavra. Quando o menino se dava conta, o seu amigo Ahmed já estava pondo compressas de água quente e unguento aromático nos seus ferimentos. As mãos cuidadosas do mercador de tapetes pareciam operar um verdadeiro milagre. Não só eram curativas para o corpo, mas refrigério para a alma. Normalmente Basir gemia, pronunciando repetidamente a palavra “papa”, num lamento profundo e doído. Muitas vezes Ahmed chorava com ele.

Nunca ore suplicando cargas mais leves e sim ombros mais fortes.

Phillips Brooks

O palácio Topkapi, com seus vários edifícios independentes interligados por jardins, destacava-se na paisagem da bela Istambul[19]. Construído com esmero e perfeição, de muitas de suas janelas podia-se avistar o estreito de Bósforo – que separa a Europa do Oriente – e o mar de Mármara.

A imponente construção, conhecida pela sua exuberância arquitetônica, era a casa dos sultões e o centro do poder do império otomano naqueles dias do século XVI.

A riqueza dos sultões era imensa, lendária. Era prática em Topkapi que tudo que eles tocassem – mesmo os objetos mais simples – deveria ser de ouro, prata ou enfeitado com pedras preciosas. Conta-se que as belíssimas túnicas de seda eram usadas por eles uma única vez e depois jogadas fora.

Deliberadamente Topkapi era um palácio de muitas portas e janelas. As portas – símbolo de poder no Oriente – eram usadas para filtrar progressivamente os intrusos e desavisados, colocando-os à mercê do soberano.

A palavra sultão – símbolo de realeza, riqueza e poder -, era um título de honra conferido a príncipes e líderes muçulmanos. Também significava “homem de muitas mulheres”. O soberano da antiga Turquia era o maior dos sultões.

O harém, com seu salão principal, era lugar reservado para o sultão, sua mãe, os eunucos e as concubinas. Centenas de lindas mulheres, vindas de todas as partes, eram ensinadas, cuidadas e enfeitadas, enquanto aguardavam serem chamadas para satisfazer ao “todo poderoso”, como também era chamado.

Diante dessa vida cheia de conforto, esplendor e exuberância, é fácil supor que muitos desejavam chegar ao trono e não mediriam esforços para alcançar seu objetivo. Some-se a isto, a vastidão do império otomano[20] – símbolo de conquistas e poder – e tem-se realmente um “eldorado” que despertava cobiça, luta e consequentemente morte.

Como resultado, eram frequentes as traições, conspirações entre familiares e tentativas de assassinato do sultão. Todo este cenário requeria uma logística tensa, complicada e cheia de cuidados.  As comidas tinham de ser previamente provadas, na presença do soberano, antes de tocarem os seus lábios. É sabido que certo sultão dormia, a cada noite, numa câmara diferente do palácio, para evitar ser assassinado.

Chegar ao trono valia mais que os laços sanguíneos.

Diante desta rivalidade exacerbada, da bestialidade das batalhas pessoais pelo poder que se desenrolavam nos bastidores do palácio, tornou-se uma lei no império otomano que quando um novo sultão subia ao trono, todos os seus irmãos tinham que ser mortos.

– Amigo Ahmed, por que os irmãos? Não eram os filhos os herdeiros diretos do sultão? – perguntou Yeter, que chegava lentamente ao local, enquanto observava Basir sentado atrás do balcão.

Hayir, hayir[21]. – respondeu sem surpresa o mercador. No início, entre os otomanos era praticado o que os historiadores chamaram de “sobrevivência do mais apto, não do filho mais velho”.  Quando um sultão morria, seus filhos tinham de lutar entre si pelo trono até que um vencedor emergisse[22].

– Mas depois a lei de sucessão passou da “sobrevivência do mais apto” para um sistema baseado na “antiguidade agnática” (ekberiyet), em que o trono iria para o homem mais velho da família[23]. – completou o pai de Basir, demonstrando também conhecer a história do seu país.

Enquanto falava, Yeter não tirava os olhos do filho. Já o menino Basir, que estava sentado no chão, cheio de medo e surpresa, fechou os olhos e tinha o rosto entre as pernas, voltado para chão.

Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.

Carl Jung

O decreto sanguinário pareceu até impor certa ordem ao império, quando um “criativo” sultão resolveu mandar matar os irmãos que ainda eram crianças. A indignação foi geral.

Para contornar a situação, os oficiais decidiram então que a melhor solução seria, ao invés de matar, aprisionar os irmãos mais novos do “imperador” otomano, como também era chamado. Eles seriam mantidos em vários quartos separados, acima do harém; e desfrutariam todos os luxos do palácio real, menos a liberdade. Teriam criados à sua disposição e todas as suas exigências seriam atendidas. Nada lhes faltaria – inclusive um harém de virgens poderia ser formado especialmente para aplacar o tédio ou a solidão, quando atingissem a idade propícia. E ainda havia a possibilidade de um deles – o mais velho – se tornar sultão, caso o irmão ocupante do trono morresse.

Pelas condições de conforto, luxo e segurança, e também pelas janelas de ouro que ornavam estes aposentos, tais locais vieram a ser chamados de “gaiolas douradas“.

Alguns destes herdeiros eram mantidos ali por toda a vida[24]. Em meio a muito ouro, prata, gigantescos armários em madrepérola, extensas bibliotecas, vitrais cravejados de pedrarias, objetos em cristal e rocha incrustada de ouro, assentos engastados de pedras preciosas e pérolas, virgens lindas e banquetes fenomenais, os irmãos do sultão iam vivendo seu cárcere privado. Vestiam-se confortavelmente com tafetás apijamados e seus recintos eram ricamente decorados com muita tapeçaria e arte.

Apesar de toda a movimentação de serviçais em torno dos herdeiros – no afã de atender aos seus mínimos desejos -, raras eram as expressões de verdadeira gratidão. A palavra “obrigado” nunca era pronunciada no palácio Topkapi.

Mustafá era o irmão mais velho do sultão.  Vivia numa das gaiolas douradas. Eram vizinhos de cárcere os seus dois irmãos mais novos: todos reféns de seu próprio destino. Ele era o sucessor natural do sultão, caso este viesse a morrer. Este fato, aparentemente desejado por qualquer súdito, parecia incomodar o príncipe.

– Como alguém, em sã consciência, poderia imaginar que eu mataria meu irmão mais velho, meu próprio sangue, meu soberano? – indagava a Joabe, seu professor de filosofia. Em suas palavras, um profundo ar de indignação.

– Como essa possibilidade é praticamente impossível para você, seu coração não a deseja, não a cobiça. – explicava Joabe com grande paciência.

– A gaiola acaba garantindo a sua própria integridade, a vida do sultão e a estabilidade do reino. – concluiu o professor.

– Será mesmo, mestre? A gaiola é minha segurança? – indagou Mustafá, irônico. – Não me faça vomitar… – completou.

– Esses corredores já presenciaram muitas histórias trágicas, Mustafá. Convém que você se acalme, aquiete seu coração e concentre-se agora nos diálogos do grande sábio Sócrates, que eu vou reler para você.

Enquanto o professor, em sua impecável túnica, dirigia-se lentamente para pegar um grande livro de capa prateada, Mustafá aninhava-se preguiçosamente entre as dezenas de almofadas de todas as cores, que enchiam a saleta de conforto e beleza. Era um jovem obeso, cujas feições tinham sido esculpidas pelo vento do Bósforo, de tanto admirar a liberdade das pessoas pela janela, ao longo dos seus quatorze anos.

– Sócrates não! Mais bolo de laranja e chá…

Mal as palavras saíram de seus lábios, um bando de serviçais começou a correr pelo palácio para atender, no menor tempo possível, aos seus desejos. O herdeiro não podia esperar.

A título de diversão, quando uma das solícitas serviçais passou perto do príncipe com uma bandeja de prata carregada de bolo e chá, ele repentinamente colocou a perna na sua frente para que caísse. O tombo foi inevitável e o fez rolar de rir no amplo sofá. Aproximou-se do acidente e gargalhou na cara da constrangida senhora, que tentava se levantar. A saliva do príncipe teve de ser enxugada dos tristes olhos da senhora, que foi socorrida por outros companheiros, diante do olhar imparcial do professor.

– Traga-me bolo e chá imediatamente, sua inútil!

Ao término da aula, o professor deixou a gaiola acompanhado de um soldado. Mustafá estava novamente sozinho. E como Basir, absorto em seus pensamentos.

A medida da vida não é a sua duração, mas a sua doação.

Peter Marshal

Basir agora observava longamente o pai, que conversava a pouca distância com Ahmed. O velho mercador aconselhava-o como a um irmão. Em alguns momentos citava versos do Alcorão.

Yeter dizia-se arrependido. Perdera a cabeça. Não sabia o que estava fazendo.

Ahmed alertou-o mais uma vez sobre as exigências do serviço social. Os funcionários eram rígidos e o prazo estava no fim.

Yeter havia sido encaminhado a diversas oportunidades de emprego, mas sempre algum problema acontecia, normalmente envolvendo o alcoolismo. Naquele momento seu único desejo era que o filho lhe perdoasse, pois havia passado dos limites.

Se você se sente só, é porque construiu muros em vez de pontes.

Autor desconhecido

Na época de Mustafá o poder dos sultões já não era o mesmo de outrora. Embora teocrático e absoluto na teoria, este poder acabou tornando-se, na prática, limitado.

As decisões políticas tinham de levar em conta as opiniões dos membros importantes da dinastia, bem como dos militares e líderes religiosos. O império entrou em um longo período de estagnação, durante o qual o poder dos sultões estava muito debilitado. Muitos deles acabaram sendo depostos pelo poderoso corpo de janízaros.

Além disto, as mulheres do harém imperial – especialmente a mãe do sultão reinante, conhecida como a Sultão Valide -, desempenharam um papel importante nos bastidores políticos. Elas viriam efetivamente a governar o império durante o período conhecido como o “sultanato das mulheres”, apesar de estarem impedidas de herdar o trono.

Em sua adolescência, Mustafá conviveu com bons professores, com quem aprendeu os segredos da matemática e astronomia. Também gostava de gamão e xadrez, tendo particular apreço por este último, no qual passava longos períodos se divertindo.

Algo estranho, porém, acontecia com aqueles garotos que se tornavam homens em seu confortável isolamento, dentro da gaiola dourada[25]. Eles perdiam o rumo, perdiam a identidade. Perdiam, acima de tudo, a compaixão[26].

Os que chegavam a se tornar sultões, quando eram confrontados ou desafiados por situações inesperadas, mostravam-se bastante ineficientes. Não lembravam nem por um instante os grandes conquistadores e estrategistas de outrora.

Alguns chegavam a ficar loucos. A grande maioria tinha dificuldade para lidar com seus conflitos pessoais e com problemas de ordem geral, fora de seu luxuoso palácio. Muitos deles acabavam sendo dominados por mulheres de seu harém.

Com Mustafá não seria diferente. Apesar da riqueza de sua existência, podia-se dizer que Mustafá era insensível.

O sultão morreu numa tarde chuvosa.

Os primeiros passos de Mustafá fora da gaiola pareceram hesitantes. Cruzou a soleira da porta de ouro acompanhado do oficial maior da guarda. Era aguardado no corredor por vários membros da realeza, pela sua mãe, algumas representantes do harém e também por um agrupamento de janízaros que iria garantir o seu deslocamento até a sala do trono. Enquanto era ovacionado e reverenciado como o novo sultão, não pôde deixar de perceber os acenos dos dois irmãos que permaneciam engaiolados.

Enquanto caminhava pelos corredores do palácio que nunca tinha conhecido, em sua mente pululavam a figura do irmão morto e alguns sonhos nunca atendidos e que agora poderiam ser realizados: andar a cavalo e treinar o arco e flecha ao ar livre. Também gostaria de mergulhar nas águas do Bósforo, cuja visão sempre embalava seus fins de tarde numa das janelas do palácio.

Na gaiola, Mustafá adorava ouvir as histórias que os mercadores contavam a seus serviçais e estes a ele.  Agora, como sultão, ele não só teria que ouvir as histórias, como também deliberar sobre elas. Esta atividade certamente iria parecer-lhe enfadonha. Mas para isto, contava com a ajuda providencial de sua autoritária e ambiciosa progenitora, chamada Sila.

Após dominar o sultão anterior, Sila agora voltava seus olhos para o seu outro filho – o desengonçado Mustafá -, e para isto contava com a ajuda de uma de suas armas mais letais: a sedutora Dilara, uma das mais exuberantes componentes do variado harém.

A realidade se forma em volta do compromisso.

Kobi Yamada

Yeter agora olhava para a figura do filho, que permanecia cabisbaixo, sentado numa pilha de tapetes.

– Vá falar com ele. Peça-lhe perdão. Seu filho entende tudo melhor do que você imagina – aconselhou o velho amigo Ahmed.

Ao ouvir aquelas palavras refletidas nos tapetes e lançadas diretamente no seu coração, o pai arrependido buscou desesperadamente os olhos do filho, que agora estavam fitos nele.

Mal ele esboçou o desejo de ir ao encontro de Basir para abraçá-lo, o funcionário do serviço social adentrou a loja, acompanhado de meia dúzia de policiais. Os vizinhos haviam denunciado os maus tratos da noite anterior.

A reação do pai arrependido foi imediata: correu para os fundos da loja, donde ganhou os corredores do mercado e daí as ruas, seguido de perto pelos policiais e seus apitos.

Eu vou aonde me leva o meu pensamento. Talvez chegue à paz do meu coração.

Dzore Drzic

Mustafá levou alguns dias para conhecer a pé todos os aposentos do Topkapi. Por entre os jardins e pavilhões do palácio, construído com a configuração de um gigantesco acampamento militar (afinal, os otomanos eram nômades), era seguido de perto por Dilara.

Dois meses já haviam se passado e não pensava mais no irmão morto. Na sala do trono, onde deliberava, dispensava a consultoria de seus conselheiros, pois Sila, sua mãe, estava sempre pronta a assessorá-lo.

Enquanto ouvia a ladainha de reivindicações – legítimas, diga-se de passagem – trazidas de todas as partes do reino pelos vizires, Mustafá se divertia com as bolhas de seu narguile, uma espécie de cachimbo de água[27]. Dilara, àquela altura sua principal concubina, divertia-se com ele. Não havia limites para as brincadeiras que o sultão insistia em impor a seus súditos.

Quando ousava expressar uma opinião sobre um assunto banal ou deliberar sobre algum problema político, jurídico ou econômico, Mustafá era um desastre.

Certa feita, ele desejou ardentemente conferir qual seria a sensação de pisar num tapete feito de corpos humanos. Ordenou que os serviçais se deitassem no chão e passou a pisá-los e a pular sobre eles, enquanto ia e vinha num corredor que dava para um jardim de camélias. Em suma, tornou-se também cruel.

Com o tempo, foi percebendo que sua maneira de pensar e suas opiniões equivocadas eram totalmente diferentes do que rezava o bom senso. Passou a sentir-se perseguido por Dilara.

A depressão foi o caminho natural após a constatação da sua loucura. Para Sila, o estado do filho era muito cômodo para suas ambições. De certa forma, ela contribuía para os desatinos do regente, induzindo Dilara a incentivar efusivamente todos os seus devaneios.

 O sultão então se tornou uma peça meramente decorativa, como muitas que havia espalhadas por todo o palácio.

Muitos estudiosos têm as gaiolas douradas como o principal fator responsável pelo declínio e desparecimento do outrora fabuloso império otomano. Como era de lá que saíam os sultões, não era possível que um grande império se mantivesse com líderes neuróticos, apáticos, ingênuos ou insensíveis.

Além disto, as atividades econômicas dos povos conquistados eram conduzidas por iniciativa deles próprios, o que fez com que a economia geral do império fosse se desintegrando lentamente[28].

Mustafá foi considerado mentalmente incapaz, o que fez com que fosse novamente encarcerado no seu quarto, servindo como simples instrumento para a concretização das tramas da corte otomana, até ser finalmente deposto por um membro da família.

Antes de iniciares a tarefa de mudar o mundo, dá três voltas na tua própria casa.

Provérbio chinês

Naquele dia Yeter não voltou para buscar o filho na loja, como era costume. Ahmed ficou preocupado, mas procurou não deixar transparecer para Basir sua apreensão.

No dia seguinte bem cedo, o velho foi chamado ao prédio do serviço social, onde foi comunicado da morte do seu melhor amigo, vítima de atropelamento durante a fuga do dia anterior.

Observado por um funcionário do governo, o mercador de tapetes chorou copiosamente, durante um longo tempo, enquanto amassava o chapéu com as duas mãos.

– E o menino? O que será dele? – perguntou, recompondo-se.

A assistente social, após oferecer um copo d’água ao senhor que estava em sua frente, explicou em detalhes o desdobramento daquela história e suas consequências sobre a vida do menino.

Ahmed mandou providenciar tudo para que o seu amigo fosse sepultado com dignidade. Apesar de sua simplicidade, o velho mercador era um homem de posses. Esteve o tempo todo ao lado de Basir, que não esquecia a imagem do pai vindo abraçá-lo.

Foi conversando muito que os muitos dias de um ano se passaram. Dizem que um homem que tem amigos não precisa gastar dinheiro com psicólogos. Este parecia ser o caso de Basir. O amigo Ahmed passou a contar-lhe histórias da sua infância, quando era tapeceiro e trabalhava com o pai. A história dos sultões parecia agora cada vez mais distante nas lembranças daquele singelo menino.

Ahmed foi novamente chamado ao escritório do serviço social.

Numa manhã radiosa, onde o vento que agitava as águas do Bósforo invadia também as casas da milenar Istambul, Ahmed e Basir vestiram-se com as melhores roupas. Pareciam preparados para uma festa popular.

A rua estava cheia de agitados turistas, com suas câmeras fotográficas e mapas e guias. Aquelas duas figuras passaram sem ser percebidas pela gente de todas as partes e rumaram confiantes, de mãos dadas, em direção ao escritório do governo.

Coincidentemente o prédio daquela repartição oficial ficava na mesma região do palácio Topkapi.

Subiram, decididos, a escadaria, como se fossem conquistar reinos.

Ahmed agora estava sentado na mesma cadeira onde, há um ano, chorara a morte do seu amigo Yeter. Desta vez seu coração estava leve: aguardava a funcionária carimbar papéis para o que parecia ser uma boa notícia.

De onde estava, o velho mercador podia avistar aquele belo exemplar da arquitetura otomana: o palácio Topkapi. Enquanto esperava a organização dos papéis, Ahmed fitava, ao longe, uma das janelas douradas. Percebeu que Basir – que estava no seu colo – fazia o mesmo. Sorriram um para o outro, como a entender o que ia em seus corações. Depois se abraçaram longamente. Naquele momento que pareceu um século, tiveram a plena certeza de que ali estava nascendo a história deles. Quem haveria de contá-la? Para eles não importava. Na verdade, aquele momento não necessitava de palavras.

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[1] Vila de Çavusin: É um dos mais antigos assentamentos na área. Nesta vila fica a Igreja de São João Batista que oferece uma vista panorâmica da aldeia.

[2] Turcos oguzes (os oriundos da região do Mar Cáspio) que se estabeleceram na região da Anatólia e posteriormente foram governados pela dinastia Otomana (Osmanlı).

[3] Islamismo, Islão ou Islã é uma religião abraâmica monoteísta articulada pelo Corão, um texto considerado por seus seguidores como a palavra literal de Deus(em árabe, Allāh), e pelos ensinamentos e exemplos normativos de Maomé, considerado pelos fiéis como o último profeta de Deus. Um adepto do islamismo é chamado de muçulmano.

[4] Alcorão ou Corão é o livro sagrado do Islã. Os muçulmanos creem que o Alcorão é a palavra literal de Deus (Alá) revelada ao profeta Maomé (Muhammad) ao longo de um período de vinte e três anos. A palavra Alcorão deriva do verbo árabe que significa declamar ou recitar; Alcorão é, portanto, uma “recitação” ou algo que deve ser recitado.

[5] Este foi um importante acontecimento ou movimento demográfico, onde uma civilização inteira deixou de ser nômade e passou a viver de forma sedentária.

[6] O império otomano foi um dos maiores e mais influentes de todos os impérios muçulmanos. Sua cultura e expansão militar cruzaram toda a Europa. Consideravam-se portadores legítimos da cultura muçulmana. Durante os séculos 15 e 16, tornou-se um dos estados mais fortes do mundo, englobando boa parte do Oriente Médio, do Leste Europeu e do norte da África.

[7] Além do poderio militar, o que ajudou a garantir essa expansão foi a tolerância dos otomanos com as tradições e as religiões dos povos conquistados. Segundo historiadores, a Igreja Ortodoxa cristã, que predominava nas terras bizantinas, foi mantida. Os judeus perseguidos pelos cristãos na península Ibérica também encontraram refúgio nos territórios otomanos. Além disso, eles permitiram que os escrivãos bizantinos mantivessem seu lugar. Criaram um sistema de tributação e registros – uma inovação para a época -, tão ambicioso quanto qualquer triunfo em combate.

[8] Os Bálcãs, ou Balcãs, ou ainda Península Balcânica, é o nome histórico e geográfico para designar a região sudeste da Europa que engloba a Albânia, a Bósnia e Herzegovina, a Bulgária, a Grécia, a República da Macedónia, o Montenegro, a Sérvia, o autoproclamado independente Kosovo, a porção da Turquia no continente europeu (a Trácia), bem como, algumas vezes, a Croácia, a Romênia e a Eslovênia e a Áustria. O termo deriva da palavra turca para montanha e faz referência à cordilheira dos Bálcãs, que se estende do leste da Sérvia até ao mar Negro.

[9] Pela sua concepção, este exército ganhou fama e serviu de modelo para exércitos dos séculos seguintes. Foi através dele que, pela primeira vez um exército usou uniformes e entrou em batalha ao som de uma banda militar.

[10] Osman, ou, em árabe, Uthman, ou ainda Otman I (1258-1324), foi um chefe turco que transformou essas tribos nômades em uma dinastia imperial.

[11] O império sempre significou tudo, mais do que a família para os otomanos. Para impedir que o império se dividisse – como tinha acontecido a outras dinastias turcas que dominavam o mundo islâmico -, quando um homem jovem se tornava sultão devido à morte de seu pai, todos os outros irmãos tinham de ser eliminados. Isto evitava a segmentação do império. Podia ser cruel, mas trouxe incialmente alguns resultados para os otomanos.

[12] Mehmed II, o conquistador (1432-1481) é conhecido como o 1º sultão a codificar a lei criminal e constitucional. Foi o 1º soberano otomano a reclamar o título de Califa, o soberano supremo de todos os muçulmanos.

[13] Com a tomada de Constantinopla, os comerciantes não tinham mais a liberdade de fazer comércio com o Oriente, e foram buscar novas rotas para as Índias, resultando na expansão marítima europeia, logo nos grandes descobrimentos.

[14] Construída pelo imperador Justiniano no século VI, o seu nome significava a Igreja da Sabedoria Divina.

[15] A Hagia Sophia tornou-se inspiração para todas as mesquitas de cúpula otomanas construídas desde então. Mas nenhuma iria se igualar ao seu tamanho e importância.

[16] As notícias do seu triunfo repercutiram pelo todo o mundo. Ele pôs fim ao império binzantino, ao capturar Constantinopla. Este evento foi visto como o fim da Idade Média e início da Idade Moderna. Para os europeus era um verdadeiro desastre. Constantinopla era, afinal de contas, a Nova Roma. Era a capital de Constantino, era o símbolo do domínio cristão no Oriente.

[17] Palavra turca, significando “vamos”, no sentido de apressar uma pessoa.

[18] A mãe de todos os mercados. O Grande Bazar de Istambul, o Kapali Carsi, tem mais de três mil lojas, casas de chá, mesquitas, cafés e restaurantes, espalhados por mais de 300 mil metros quadrados (muito maior que boa parte dos mais amplos shopping centers brasileiros). Sua estrutura – com elegantes arcos e abóbadas – é uma atração a mais para o comércio na capital turca. Lá podem ser visitadas diferentes lojas de tecidos, especiarias, joias e muito mais.

[19] Bizâncio, Constantinopla, Istambul: três nomes para a mesma cidade! Chamada Bizâncio nos três primeiros séculos da nossa era (do nome Byzas, o chefe dos Dórios), depois Constantinopla no século IV (do nome do Imperador Constantino), ela foi rebatizada de Istambul em 1453 pelos Otomanos. Hoje em dia é uma grande metrópole com cerca de 10 milhões de habitantes, dividida em duas pelo estreito de Bósforo.

[20] Englobava boa parte do Oriente Médio, do Leste Europeu e do norte da África.

[21] “Não, não” em turco.

[22] Por causa das numerosas lutas internas e fratricidas, a data de morte de um sultão nem sempre coincidia com a data de início do seu sucessor.

[23] Isto, por sua vez explica porque a partir do século XVII, um sultão falecido era raramente sucedido por seu próprio filho, mas geralmente por um tio ou irmão. A “antiguidade agnática” foi mantida até a abolição do sultanato, apesar de tentativas infrutíferas no século XIX de substituí-la pela primogenitura.

[24] No caso do irmão sultão não morrer, poderiam, ao logo da vida, ganhar propriedades e títulos, mas deveriam administrá-los e exercê-los de dentro das gaiolas.

[25] Também conhecidas como kafes (em turco).

[26] Conta a história que Deli Ibrahim tornou-se sultão após 22 anos na “gaiola dourada”. Sofria de extrema paranoia a ponto de, uma vez, mandar afogar 200 concubinas no mar de Bósforo. Outro líder que surgiu da “gaiola dourada”, Osman II, às vezes, usava prisioneiros de guerra como alvos vivos de arco e flecha.

[27] Não sendo propriamente um hábito de origem turca, foi aquele que adotaram como melhor acompanhante do chá. O tabaco é misturado com melaço e perfumado com frutas e óleos. O resultado, sobretudo quando fumado em grupo, parece ser muito agradável, até para quem habitualmente não fuma. Os turcos afirmam que tais cachimbos não fazem mal à saúde. Em alguns locais os narguiles podem ser alugados.

[28] A instabilidade política aumentava cada vez mais até que, em 1909, o sultão Abdul Hamid II foi deposto por uma rebelião. Essa mudança deu início à modernização do império, bastante influenciada pela Alemanha, ao lado de quem os turcos lutaram na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A derrota no confronto tumultuou ainda mais o já dilacerado império, que foi abolido pouco depois, em 1923, quando foi proclamada a República da Turquia.

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SOB A ÓTICA DA GESTÃO DE PESSOAS

O peixe começa a deteriorar pela cabeça.

Ditado turco

A história das gaiolas douradas, de certa forma, amplia a discussão acerca da Síndrome de Estocolmo empresarial. Além do encanto que o sequestrado passa a sentir pelo sequestrador, não raras são as vezes em que o longo período de reclusão acaba por afetar o poder de discernimento dos que são submetidos a esta experiência. Isto explica, de certo modo, o pertinente questionamento do autor do artigo sobre a ausência de imparcialidade percebida nos estudantes que pagam de seus bolsos um MBA para aprenderem exatamente a ver com olhar mais crítico o negócio.

Conta a história que a grande maioria dos sultões que saiu das “gaiolas” era ineficiente, corrupto ou louco. Além de serem consumidos por intrigas palacianas, tinham enorme dificuldade em lidar com problemas fora do seu luxuoso mundo. Muitos, de fato, acabavam sendo dominados por mulheres ardilosas do seu harém.

Assim, o império Otomano, que se propagou por todo o mediterrâneo, e que um dia representou uma ameaça à própria Europa, começou a declinar, até que, finalmente, desapareceu.

Uma vida confortável e luxuosa, como um emprego numa boa empresa e com alguns benefícios atraentes, propõe – e por que não dizer impõe – um sentimento perigoso que deve ser evitado: o da autossuficiência.

A autossuficiência, como um veneno ministrado em doses homeopáticas, vai matando aos poucos o poder de discernimento e a visão crítica. É perigoso, em qualquer tempo, alguém pensar que não precisa de nada nem de ninguém. Que não precisa praticar releituras de um mesmo tema: a empresa, a unidade de negócio ou mesmo a carreira profissional, sem falar na própria vida.

Esta espécie de delírio, de loucura – imperceptível, se maquiado pelas convenções sociais – vai produzindo uma espécie de letargia, de desinteresse pela opinião que não seja a própria, transformando o postulante a autossuficiente numa pessoa nem quente nem fria, mas morna.  Este é o perigo da “gaiola dourada”.

Jesus, o Mestre dos mestres, alerta para este perigo em sua carta à igreja de Laodiceia, constante do livro de Apocalipse. Os cristãos daquela cidade tiveram suas vidas espirituais enfraquecidas e nem perceberam. Tinham tudo, não precisavam de nada. Tornaram-se desapaixonadamente “mornos”.

Aquilo que mais valorizavam acabou por perder a cor, esvaindo-se entre os dedos. Valores que antes norteavam suas vidas e que eram defendidos com paixão e intensidade, agora eram amenizados pela sedução do relativismo, que se impõe nas mentes dos que buscam justificativas para os seus atos. O alerta de Jesus é que pessoas que se tornam autossuficientes podem se tornar pobres, cegas e nuas – apesar de serem ricas, possuírem visão e estarem vestidas -, exatamente como Mustafá e tantos outros sultões. Exatamente como pode acontecer com qualquer colaborador.

A “gaiola de ouro” aqui pode ser comparada à empresa que, de forma coercitiva, quase subliminar, não deixa nada faltar, mas também não proporciona o suficiente para que pense em deixá-la. É a lei da “mais valia” defendida pelo capitalismo.  Anualmente oferece bônus, premia os destaques, disponibiliza certo conforto e segurança capazes de colocar os colaboradores numa posição que não lhes permite desenvolver, por exemplo, as visões críticas oferecidas pela academia.  Tornam-se cegos, pobres e nus, como advertiu Jesus. Podem tornam-se funcionários letárgicos, como um exército de zumbis – para citar as famosas séries de tv, apreciadas por muitos – prontos a vender, consertar, gerar, planejar, produzir, mas totalmente alheios a outros valores importantes da vida, como família e amigos. Se não alheios, pelo menos exímios “procrastinadores da felicidade”.

Afinal, não é a família o sentido de trabalharmos tão arduamente? Ou seriam as viagens ao exterior? O que é que move o seu coração?

CONCLUSÃO

Os moradores da gaiola são prisioneiro do sultão (ou do sistema), assim como os meninos cristãos treinados para serem janízaros ou fiéis ao sultão. Vivem uma vida confortável, têm a impressão de ter tudo (como numa empresa), mas na verdade estão à disposição do império para serem usados como lhe aprouver.

Passam a defender o império (e o sultão) como um sequestrado que admira o sequestrador. Têm medo de serem mortos (ou demitidos) por ele e querem ter suas vidas (empregos) preservadas.

São gratos por ter-lhes poupado a vida, já que deveriam ter sido mortos (demitidos) por serem os principais demandantes (concorrentes, se não na empresa) ou herdeiros do trono.

Tentam sobreviver para auferir benefícios do soberano (alguns chegam a se tornar vizires), como títulos e terras. O mesmo acontecia com os meninos cristãos (recebiam estudo e preparo, além de títulos). Aprendem a conhecer o seu aprisionador, como forma de sobrevivência, para que possam se destacar e adicionar algum sentido às suas vidas, que de outra forma pareceriam extremamente funcional. Qualquer gesto de simples benefício é visto como ato salvador e benfazejo.

O aprisionador lentamente começa a parecer menos ameaçador: mais um instrumento de sobrevivência e proteção do que de dano. Essa é uma estratégia do aprisionador que acaba por envolver e iludir o aprisionado.

Traçando um paralelo, a empresa – através de sua marca -, trabalha em seus colaboradores um sentido de “pertencimento” capaz de aplacar todos estes medos e até motivar ações heroicas, como “virar a noite” em cima de relatórios e planilhas, para auferir benefícios (reconhecimento, bônus, etc), em detrimento de momentos importantes com a família.

Aquelas crianças desfrutavam de todos os luxos do palácio real, todas as suas exigências eram atendidas. Elas não precisavam de nada, além de terem a chance de se tornar Sultão, caso o irmão no trono morresse.

O texto acadêmico fala dos efeitos de um sequestro, fazendo um paralelo com as angústias e medos do colaborador na empresa. O conto fala do próprio sequestro, quando o colaborador se deixa “sequestrar do mercado” para a “gaiola dourada da empresa”, e todas as consequências que advêm disso. O colaborador é cevado e entregue ao mercado, se bobear, como os sultões: pobre, cego e nu.

Se não ficar atento, pode desenvolver uma ineficiência, uma letargia funcional que não permite olhar criticamente o status quo, nem buscar novos caminhos, seja na própria empresa ou fora dela. Uma sutil lavagem cerebral que provoca acomodação numa zona de conforto, como a fábula do passarinho que caiu do ninho em cima de um monte de estrume quentinho, e que resolveu ficar ali confortavelmente, sem lutar pela vida e sem atentar para o fato de que o estrume iria secar e aprisioná-lo, deixando-o à mercê das cobras.

A comparação pode não ser muito feliz, mas descreve bem os perigos de deixar-se ofuscar pelo sequestrador, cuja relação de sequestro se estabelece quando ela exacerba a relação comercial ou profissional intrínseca – pagamento pela força de trabalho – e atinge a parcela de tempo preciosamente preservada (e necessária) para a vida. Dramaticamente, torna-se uma questão de vida ou morte. Ou seria de sequestro?

Relacionando o conto ao ambiente empresarial, é necessário a uma pessoa que deseje realmente sair de sua gaiola dourada, que procure uma forma de evoluir profissionalmente, seja ela qual for (livros, textos, escolas, coaching, uma consultoria), que neste processo esteja preparada para ouvir, para abraçar as mudanças e as inovações que lhe serão propostas, selecionando quais delas fazem mais sentido para o seu modelo comportamental ou mental. Aceitar os privilégios da empregabilidade à custa de uma imobilização intelectual e criativa não traz um futuro promissor no longo prazo, prejudicando o desenvolvimento e o aprendizado de quem deseja um dia ocupar o lugar do Sultão (ou de gestão). O Mestre dos mestres, Jesus de Nazaré, costumava dizer: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!”. É preciso preparar os ouvidos para uma escuta ativa sem reações emocionais precipitadas, aceitando o novo, apreciando o insólito.

Voltando à história contida no conto, os soberanos otomanos, que sempre tiveram o costume de criar títulos para si – como “Khan”, que em turco significa imperador, “Shahinshah”, que em persa significa rei dos reis e “Sultão”, a palavra árabe para governador – com a conquista do império Bizantino, reivindicaram para si o inédito título de “Sacro Imperador Romano”. Mehmed e os seus sucessores tinham alcançado os portões do Ocidente e estavam prontos para avançar em direção àquele que eles afirmavam ser o seu principal objetivo: a conquista da Europa. Este desafio iria caber ao mais lendário de todos os sultões – Soleiman, tradução árabe de Salomão -, mas essa é outra história…

Referência Bibliográfica

CAMARGO-MORO, Fernanda de. A Ponte Das Turquesas. São Paulo, SP: Editora Record, 2005.

MANUAL BÍBLICO SBB; tradução de Lailah de Noronha. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008.

__________________Documentário intitulado “O Império Otomano”, disponível em http://www.youtube.com/watch?v=wAD89XdGKSc.   Acesso em outubro de 2012.

FINLEY, Mark. Documentário “Laodiceia, o remédio certo”. Da série Cartas de uma ilha solitária, disponível em http://www.youtube.com/watch?v=nrwLCtP-1W4. Consultado em: Setembro de 2012.

LAYTON, Julia, “O que causa a síndrome de Estocolmo?” In: Howstuffworks. Disponível em: http://pessoas.hsw.uol.com.br/sindrome-de-estocolmo.htm. Consultado em: 08/06/2012.

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