por Ciro Mendonça

“What is a cynic? A man who knows the price of everything and the value of nothing”

Oscar Wilde

Sempre que penso em sustentabilidade me vem à mente um belo filme de 1975 dirigido por Akira Kurosawa cujo título é Dersu Uzala. Este filme conta a história de um capitão do exército russo, líder de uma expedição de levantamento topográfico que se perde nas florestas geladas da Sibéria e é resgatado por um caçador Goldi (Dersu Uzala) que passa a servir-lhe de guia. Dersu é um exemplo de humildade e sabedoria e, aos poucos, com suas habilidades, conquista a admiração, o respeito e a amizade do Capitão Vladimir. Em duas cenas inesquecíveis, aquele aborígene atarracado personifica de maneira clara a essência da sustentabilidade.

Na primeira cena, seguindo seu instinto de caçador nômade ele abandona uma cabana, mas deixa dentro dela mantimentos, velas e fósforos, revelando de forma pungente sua preocupação com aqueles que virão.

Na segunda cena, Dersu e o capitão se encontram em local aberto, uma estepe, quando uma nevasca os atinge. Diante do frio siberiano o explorador russo se abate antevendo a morte certa, mas Dersu o convence a recolher os arbustos da estepe. Cambaleante, sem entender claramente o propósito da ação, faz o que Dersu lhe pede e, juntos, recolhem até a exaustão a vegetação rala que, mais tarde, se transformará numa pequena cabana cavada na terra. Uma das melhores cenas do cinema ilustrando uma alternativa sustentável diante do embate entre natureza e sobrevivência.

Ao resgatar esta obra de Kurosawa, estaríamos, em nome da sustentabilidade, insinuando ou mesmo propondo que em pleno século XXI reinventássemos uma escola de ascetas, uma comunidade de Dersus?

Absolutamente, não. Entretanto, o que não deve preponderar é o reverso da moeda. Se não, vejamos:

O matemático e filósofo inglês Tim Jackson, Professor de Desenvolvimento Sustentável e Diretor do Grupo de Pesquisas sobre Estilos de Vida, Valores e Meio Ambiente na britânica Universidade de Surrey, em sua crítica à sociedade do consumo descartável exacerbado, afirma que “Estamos sendo persuadidos a gastar dinheiro que não temos, em coisas que não precisamos, para criar impressões que não duram, em pessoas que não nos importam”.

Na mesma linha de crítica o cantor e compositor Caetano Veloso ironiza, em sucesso musical recente, o consumismo deslumbrado da sociedade brasileira: “Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro, GPS e acha que é feliz”.

A despeito de tudo o que foi dito anteriormente, a verdade é que o debate sobre a sustentabilidade está em marcha, envolvendo pessoas, corporações e Governos e vem se adensando nas suas múltiplas vertentes, quais sejam, economia e reuso de recursos hídricos, redução do consumo e reciclagem dos resíduos, investimentos em energias alternativas em substituição aos combustíveis fósseis com  consequente redução das emissões, manejo adequado do solo e de florestas, mobilidade urbana, dentre outras. Falta, entretanto, dar concretude a este discurso. Como medir a sustentabilidade?

Além do estabelecimento de metas claras, é preciso acrescer aos atuais indicadores que medem o desenvolvimento econômico, na sua maioria concebidos imediatamente depois do pós-guerra e objetivando avaliar, principalmente, o desempenho da produção industrial, um novo leque de indicadores cuja abrangência os faça capazes de traduzir o progresso social das nações por meio de novas metodologias de mensuração que levem a uma mudança de foco da produção para o bem-estar.

Tim Jackson afirma que “É necessário redefinir a riqueza e a prosperidade com base nos parâmetros de *capacidade de florescimento* de Amartya SEM, ganhador do Nobel de Economia em 1998 e considerado o criador do IDH. O florescimento se define como ter o suficiente para comer, ser parte de uma comunidade, ter um emprego que valha a pena, uma moradia decente, acesso a educação e serviços médicos.

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