por Ciro Mendonça

A simplicidade é a máxima sofisticação

Leonardo da Vinci (mantra da Apple)

Estamos às portas da Rio+20 e os cariocas se preparam com entusiasmo para sediar a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Multiplicam-se as palestras e os artigos de estudiosos e especialistas versando sobre Sustentabilidade, algo que, como seria previsível, tornou-se um assunto momentoso.

Indagado recentemente sobre o que falta para a sociedade ter conhecimento sobre a seriedade do tema, o físico austríaco Fritjof Capra não pestanejou: “Educação. As pessoas não sabem direito o que é sustentabilidade, ficam à mercê de informações contraditórias”. Responsabilizando por isso a indústria dominante, notadamente a dos Estados Unidos, onde mora, afirmou que “as multinacionais têm valores muito opostos à sustentabilidade e, valendo-se de sua enorme influência junto aos consumidores, divulgam informações deturpadas e escondem alguns dados sobre o impacto que causam”.

Não se trata somente de um problema educacional, mas também de valores. Por isso, o desafio está em identificar que tipo de informação educacional deve ser utilizada e aplicada desde a infância nas escolas visando a reverter este quadro preocupante. Aparentemente, há forças antagônicas se digladiando no mundo globalizado.

Em seu novo livro “O que o dinheiro não pode comprar: o limite moral dos mercados” o filósofo de Harvard Michael Sandel identifica como uma tendência ruim certas invasões comerciais em espaços de ensino, citando como exemplo a decisão de uma escola primária de New Jersey/USA, que ao preço de US$100 mil, vendeu direitos de patrocínio a um supermercado local que rebatizou seu ginásio esportivo para ShopRite of Brooklawn Center. Na mesma linha de raciocínio, critica o fato de que, em 2011, sete estados da federação aprovaram a exibição de propaganda em ônibus escolares. Segundo Sandel, “estamos migrando de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado onde tudo está à venda e na qual os valores do mercado governam todas as esferas da vida”. O filósofo alega que, quando escolas públicas são cobertas de anúncios, elas ensinam os alunos a serem consumidores, não cidadãos e, portanto, os valores de mercado estão deslocando as práticas cívicas.

Este contexto de alienação nos parece o ambiente propício à proliferação do homem-massa, classificação pejorativa criada pelo mestre espanhol Ortega&Gasset para tipificar este homem vulgar e cheio de tendências incivis, este novo bárbaro, produto automático da civilização moderna que “ao se encontrar com este mundo técnica e socialmente perfeito, pensa que foi criado pela Natureza, e nunca se lembra dos esforços geniais de indivíduos excepcionais que a sua criação pressupõe”. Ortega afirma que “seu diagrama psicológico apresenta dois traços fundamentais de criança mimada: a livre expansão de seus desejos vitais e a radical ingratidão para com tudo o que tornou possível a facilidade de sua existência”. E prossegue o mestre: “Herdeiro de um passado longo e genial – genial de inspirações e de esforços – o novo vulgo foi mimado pelo mundo à sua volta, daí sua impressão de que tudo lhe é permitido, que não é obrigado a nada” …não tem noção de seus próprios limites…chega a acreditar efetivamente que só ele existe, e se acostumou a não considerar os demais, principalmente a não considerar ninguém como superior a ele”.

A escritora Rosiska Darcy de Oliveira, em belo artigo que suscita nossa reflexão disse: “A cultura do imediato, do eterno presente, da volatilidade e da fugacidade, não favorece a compreensão de problemas que se estendem no longo prazo, a exemplo da crise ecológica, talvez o maior desafio colocado à inteligência humana”, e indaga a seguir: “Que mentes viciadas na satisfação instantânea, no estilo zapping, serão capazes de reconhecer e equacionar um problema que se enuncia em décadas e cuja solução exige, hoje, renúncias em nome de amanhã?”.

A razão de tanta digressão é mostrar que a hegemonia do homem-massa é uma barreira, um obstáculo quase intransponível à construção da Sustentabilidade, que de maneira simples pode ser entendida como desenvolvimento econômico e social com conservação ambiental.

Porém, nem tudo é notícia ruim, pois existem caprichos inexplicáveis propiciando o surgimento de novas forças que se contrapõem às da sociedade de mercado.

Primeiro, a reação da própria Natureza que cobra inexoravelmente com seus impactos pedagógicos, não raros trágicos, uma urgente reflexão comportamental de todos nós, uma profunda ressignificação dos valores a cultuar. Assim, purgamos o suplício diário do transporte individual, que paradoxalmente nos imobiliza nas grandes cidades, assistimos horrorizados ao desmoronamento do morro do Bumba (um antigo lixão tomado por ocupação desordenada) soterrando e matando os moradores de uma comunidade pobre em Niterói e às cheias do Rio Negro inundando os bairros de Manaus com toneladas de lixo que representam enorme risco à saúde da população.

A segunda força, talvez a mais surpreendente, emerge com o advento da economia de serviços e suas demandas especiais sobre os novos profissionais, totalmente divergentes daquelas que caracterizavam os operários que trabalhavam nas linhas de montagem da era pré-automação industrial e que executavam tarefas específicas e sequer sabiam ou compreendiam a natureza do trabalho da pessoa ao lado. Tal é a premissa defendida por James Heckman, estudioso de educação e ganhador do prêmio Nobel de Economia 2000.

Segundo Heckman, a nova economia de serviços, ao se tornar mais forte e maior, está demandando novas e diferentes habilidades cognitivas (soft skills), como por exemplo, habilidades sociais, criatividade, interação e engajamento na sociedade, atributos típicos do profissional-cidadão que possui maior consciência do impacto de suas ações no coletivo.

Por isso, a transição para um modelo sustentável não pode prescindir de um novo modelo de educação, mais engajado e inserido na sociedade, que, por sua vez, não pode aceitar a vergonha de um avanço científico e tecnológico que amplia a desigualdade.

Educação é, essencialmente, um treinamento de caráter que tem que começar na infância porque somente uma geração formada com novas mentes e novos corações como pedia a Carta da Terra, será capaz de fazer a revolução paradigmática exigida pelo risco global sob o qual vivemos.

Reiteramos, assim, que a retórica da sustentabilidade associada à da educação são importantes porque representam o início da transição para uma nova era que vai superar o industrialismo, bloquear a sociedade de mercado e extinguir a personalidade do “homem-massa”, levando a Humanidade, esperamos, a tal “brotherhood of men” com a qual John Lennon sonhou.

Para concluir, vale lembrar comentário do professor Haroldo Mattos de Lemos (UFRJ) que, palestrando certa vez na FIRJAN, lembrou que, na pré-história, a espécie humana esteve no limiar da fertilidade porque, às voltas com predadores, a idade média do macho desceu para 14 anos, mas ainda assim ela não se extinguiu. Hoje, nossas ameaças são outras: aquecimento global, rupturas biológicas irreversíveis, desertificação, escassez hídrica, quebra de safras, fome, tudo isso somado a uma crise econômico-financeira persistente que se propaga pelo mundo como uma nuvem nômade. A despeito de projeções alarmantes, devemos perfilar ao lado dos otimistas cautelosos e lutar o bom combate.

A Humanidade merece.

Referências:

OLIVEIRA, Rosika Darcy de. Paradoxo Tragicômico. In: Rio como Vamos. Disponível em http://riocomovamos.org.br/rosiska/?p=165. Consultado em 09/06/2012;

ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Trad.: Herrera Filho. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2007;

SANDEL, Michael J. What Money Can’t Buy – The Moral Limits Of Markets. New, York, NY, USA: Farrar, Strauss & Giroux, 2012.

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