por Samir de Oliveira Ramos

Henry Mintzberg, em seu livro “O Processo da Estratégia” (2006) esclarece que há cinco formas de uma empresa enxergar seu conjunto de estratégias: Como um Plano para alinhar toda a empresa numa só direção, como uma Manobra (Ploy, em inglês) para derrubar os concorrentes, como uma Posição para dominar o mercado nicho após nicho, como um Padrão para especializar-se em um determinado segmento de mercado, ou como uma Perspectiva para alcançar sua visão de futuro através da preparação interna da organização. Este conceito ficou conhecido como os 5 P de Mintzberg. Na preparação da organização para alcançar sua visão de futuro (P de Perspectiva), a empresa pode desenvolver produtos e formas de operar inovadoras, que acabarão por levá-la a um mercado ainda não explorado. A perseguição consciente destes mercados é tratada no best-seller de W. Chan Kim e Renée Mauborgne, “A Estratégia do Oceano Azul: Como Criar Novos Mercados e Tornar a Concorrência Irrelevante” (2005). Mas seria tão fácil assim? Os profissionais de uma organização estudam os métodos que podem levá-los a alcançar uma visão de futuro através de “Oceanos Azuis”; são providos de talento e experiência para farejar novos mercados; e com estes ingredientes o futuro da empresa está garantido. Será?

O pasto, aos poucos, deixava de ser negro e explodia em verde, diante dos primeiros raios de sol. Ruanito — era assim mesmo que constava na sua certidão de nascimento — escovava os dentes no quintal, enquanto olhava um atrasado grilo que procurava fugir da luz do dia e dos vidros da criançada.

Lá para as bandas daquele povoado havia competição entre as crianças. Quando os adultos davam por falta dos preciosos vidros, já sabiam que iria encontrá-los com caranguejeiras, besouros de todos os tamanhos e cores, gafanhotos e centopeias, além de saúvas, tanajuras e até escorpiões.

Ruanito era um exímio “caçador” de insetos, um dos melhores da região, mas a tarefa que lhe impuseram era difícil, praticamente impossível. Dandinha exigira um besouro com as asas da cor de um pôr do sol — o único que não tinha em sua vasta coleção — em troca de uma “bitoca”. Ruanito estava desesperado, pois exatamente hoje era o último dia. O prazo se encerrava no fim da tarde, debaixo da mangueira, ao lado da igreja. Quando o velho sino do campanário badalasse seis horas, o misterioso invertebrado deveria estar em seu poder.

Dois fatores comuns hoje às grandes organizações são as missões cada vez mais arrojadas e de difícil alcance, e a pressão do tempo para a obtenção das metas que levarão a empresa ao cumprimento de sua missão.

O garoto acordou cedo e tocou-se para o pasto à procura do precioso inseto. Há dias que, em vão, procurava. Encontrara os verde-pérola, cinza-prateado, os azul-cobalto, amarelo-ouro, vermelho-sangue, os verdes-garrafa, mas o besouro da cor de pôr do sol não encontrou nem a decreto!

Disseram os mais velhos que, apesar do nome, ele costuma aparecer no pasto com o raiar do dia, mas “lá praquelas bandas”, eles não sabiam se existia; nunca tinham visto o “mardito” besouro por lá.

“Ah, Dandinha, você devia ter pedido outra coisa mais fácil. Até uma tarântula eu conseguia procê, mas esse tal de besouro pôr do sol, num sei não…”, pensava o pobre Ruanito, já agachado no meio do pasto, entre as moscas varejeiras que pousavam e decolavam de suas orelhas.

Ficou assim agachado feito uma cabra, não se sabe por quanto tempo, catando o capim que nem se cata piolhos. O sol já ia alto e começava a ficar tonto, todo sujo de lama, quando a visão do paraíso descortinou-se ante seus grandes olhos cor de amêndoas.

A menos de vinte metros – não! -, a menos de dez metros um grande, precioso, fabuloso, maravilhoso, inacreditável, espetacular besouro pôr do sol debatia-se lentamente, enquanto era mastigado com capim por uma preguiçosa vaca malhada.

Ruanito, diante da cena insólita, não se fez de rogado. Partiu para cima da “bicha” e começou a puxar-lhe a espessa língua, ante o olhar desesperado do ruminante, que tentava se desvencilhar do apaixonado garoto, fincando suas enormes patas traseiras na lama.

O esforço foi em vão. Era tarde demais. “Pôr do sol” havia rolado garganta abaixo, junto com o bolo de capim que era preparado para ser ruminado. Agora ele entendia porque Dandinha queria tanto aquele espécime. Realmente era lindo, brilhante, grande e inesquecível o tal de pôr do sol.

Adriana Florentino Nogueira, em sua pesquisa de conclusão de curso intitulada “Inovação Através da Criação de uma Nova Categoria” (http://www.ead.fea.usp.br/tcc/trabalhos/Artigo-Adriana%20Nogueira.pdf), que retrata o Oceano Azul conseguido pela PepsiCo ao criar o “H2OH!”, produto que iniciou uma nova categoria de bebidas, povoada hoje por vários produtos seguidores, afirma que “A cultura de inovação da PepsiCo busca promover o trabalho em equipe e o espírito empreendedor. Nesse sentido são priorizadas as ações ligadas à inovação para ajudar a empresa a alcançar as metas do negócio e direcioná-lo ao rumo desejado”. No trabalho da administradora, fica clara a persistência dessa empresa em procurar o novo, o que a diferencia dos outros competidores no mercado.

Ora, então existe outro ingrediente crítico para que as organizações garantam sua perenidade no mercado. Nem a forma moderna de enxergar a estratégia, nem o aprofundado conhecimento da metodologia de Kim e Mauborgne, e nem mesmo a criatividade de seus profissionais, são páreo para o principal elemento de alcance de um mercado inexplorado através de um produto inovador: a persistência na busca do novo. Este é o principal fator para a criação de demandas ainda não exploradas (Oceanos Azuis), a despeito do grande esforço que se tenha que empreender nesta busca.

Na hora marcada soprava uma leve brisa, que balançava as tranças de Dandinha. Ela esperava com um vidro na mão a chegada de Ruanito. Os lábios pintados com o batom da mãe destacavam-se na cena, nem mais nem menos que uma manga rosa madura que ameaçava cair.

Não demorou muito e Ruanito apontou no final da rua que dava na praça. Também havia se preparado para a ocasião. Vestia uma bermuda de linho azul com suspensórios – a mesma com que ia à missa – e tinha o cabelo molhado e partido ao meio. A camisa branca de botões madrepérola estava semiaberta no peito, dando-lhe um ar confiante e decidido.   Trazia, todo feliz, puxada por uma corda, a tal malhada comedora de besouro. O coração bateu-lhe mais forte quando viu Dandinha toda arrumadinha, de batom e tudo, debaixo da mangueira.

Contou-lhe nos mínimos detalhes o ocorrido. Após certificar-se – com uma saraivada de perguntas – de que o besouro que Ruanito vira era mesmo o dos seus sonhos, Dandinha postou-se ao lado dele para juntos aguardarem o intestino da ruminante dar o ar de sua graça. A cena era digna de uma foto de lambe-lambe: as duas crianças arrumadinhas, com a igreja ao fundo, debaixo da mangueira carregada de frutos.

Não sabiam afirmar se a ansiedade e o esforço a que se propunham era pelo beijo ou pelo besouro, ou pelos dois. De vez em quando os olhares se cruzavam e imediatamente baixavam. Só que encontravam os lábios — Ah! Que martírio! — e fugiam deles, desviavam, inventavam qualquer assunto ou ponto de atenção.

A malhada, que estava amarrada na mangueira, deu umas voltas, soltou uns mugidos, olhou a praça com um olhar melancólico, cheio de desinteresse e, sem mais nem menos, adubou o pé da árvore, entre sons e esguichos de matéria esverdeada e de cheiro peculiar. Ruanito imediatamente soltou a mimosa e pôs-se, com uma vara numa mão e o nariz na outra, a revolver o material em busca do precioso. Dele, só encontrou a carcaça, e — pasmem! — pregadas nela, duas vistosas asas brilhantes.

Hoje o achado encontra-se na sala de estar da casa do casal, na capital, delicadamente instalado numa moldura. Os filhos de Ruanito e Dandinha, todos os anos, durantes as férias escolares, vão para o sítio. E, em vão, procuram, nas auroras, pelo besouro da cor do pôr do sol.

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Sob a Ótica de Gestão de Pessoas

“Se um homem não descobriu nada pelo qual morreria, não está pronto para viver.”

Martin Luther King

A amplitude do beijo imaginado pela mente infantil do garoto Ruanito é extraordinária, avassaladora. Enquanto para Dandinha o “oceano azul” era aquele besouro raro, inigualável, para Ruanito era o chamego inocente da amada.

Ela, cheia de orgulho e convicta de que não perdera uma boa oportunidade, iria exibir o estupendo espécime para os colegas no colégio, para os professores, para os familiares, para o povo daquela pacata cidade. A rádio noticiaria o inusitado fato. Provavelmente ganharia algum prêmio na feira de ciência ou um aperto de mão do prefeito.

Já o heroico Ruanito se contentaria, após a “bitoca”, em andar na companhia daquela que era a musa dos seus sonhos. Quantas noites em claro imaginando aquele beijo…e aquele besouro! Não mediria esforços para encontrá-lo e assim conquistar o tão almejado prêmio. Os garotos da sua turma certamente iriam respeitá-lo e admirá-lo. Apesar do lamento infantil e dengoso, afinal de conta era apenas uma criança, nada o deteria.

Em sua iniciação cheia de perigos e dramas, teve que interrogar adultos, vasculhar grandes áreas, dividindo-as em setores, trocar o dia pela noite e a noite pelo dia, subir em árvores e revolver pedras, investigar pistas e ligar fatos, acompanhar rastros e mapear campos. Qual companheiro lhe disse a hora de abandonar uma pista ou lhe ensinou quando estava perto de uma cobra? Quem colocou a mão no seu ombro quando a perna tinha sido esfolada por um espinho e a sua alma ordenava desistir? Seguiu sua intuição, conservou sua esperança, deixou-se surpreender pelas novidades de cada dia e pela exuberância da natureza. Banhou-se em rios e conheceu suas nascentes, comeu frutos inacessíveis aos de sua geração, conheceu espécimes de animais, plantas e insetos que poucos homens ousaram ver e manteve seu coração em chamas que ardiam pela possibilidade de um beijo. Não um beijo qualquer: o beijo. O beijo do ser amado, impossível até de imaginar, o beijo transcendente que eleva o ser beijado a um estado de torpor e deslumbramento, o beijo que arrasta multidões para os cinemas, o encontro de almas unidas por lábios sem palavras. Nas batalhas travadas em busca de um besouro, Ruanito foi emancipando sua alma, encontrando a si mesmo.

O arquétipo de Ruanito veste bem qualquer colaborador que esteja motivado por um projeto ou por pertencer a uma equipe, área ou empresa. Vale frisar também sua capacidade de adaptação e o seu foco no resultado. Apesar do objeto de desejo de sua amada estar dentro do ruminante, ele não mediu esforços em reavê-lo para ela.

Já o arquétipo do beijo, magistralmente usado por Dandinha, veste bem qualquer produto inovador que tem a função de “encantar” ou surpreender o cliente. Neste momento faz-se necessário medir as palavras para não passar uma imagem da garota como interesseira e manipuladora. Ela agiu com a melhor das intenções e também nutria certo apreço pelo corajoso garoto. Para falar a verdade, nem mesmo ela sabia se o tal besouro existia. No fundo, surpreendeu-se com a existência dele e muito mais com a determinação de Ruanito. Ele tinha voltado diferente. Seu olhar não era o mesmo. Algo havia acontecido.    

A partir do caso retratado na pesquisa de Adriana Nogueira, constata-se que as recompensas para os que perseveram são relevantes: Imagem da empresa de pioneira no mercado; receita abundante sem concorrência durante um período; aptidão da empresa para mudanças futuras no ambiente; e ainda o reconhecimento do mercado de sua capacidade inventiva e operacional no segmento. Em suma, é de fundamental importância perseguir obstinadamente seus Oceanos Azuis.

 Conclusão

O oceano azul alcançado e conquistado por uma empresa inspira colaboradores e mercado. A cena de um grande e rápido veleiro vencendo ondas e singrando o mar em direção a novos desafios enche o imaginário de motivação, aquece corações, suscita pensamentos estratégicos, atenua possíveis dificuldades e dá forças para continuar tentando.

A razão de ser de uma pessoa jurídica – sua missão – é consubstanciada pela razão de ser de seus colaboradores. Não há outra forma de funcionar, sem prejuízo de pessoas. Deriva de um dinamismo fático e factual, permeado por uma busca incessante da excelência construída e alicerçada em tomadas de decisão que culminam em inovação e diferenciação.

Voltando à história contida no conto, Ruanito ao procurar um raro besouro, encontrou a si mesmo. Dandinha, ao idealizar um besouro que ela nem sabia se existia, acabou por encontrar o amor. Os filhos deles ainda hoje buscam rastros na história de seus pais. Como arqueólogos em busca de ancestrais, devotam tempo a procurar um elo perdido que dê significado às suas vidas, até o dia em que vão entender, ao olharem detidamente, que o besouro na moldura da sala só tem a cor do pôr do sol aos olhos de seus pais. Neste instante único e revelador de suas vidas, vão entender que devem começar a escrever suas próprias histórias, trilhar seus próprios caminhos, buscar seus próprios tons e cores, com os quais irão compor suas sinfonias e pintar suas obras de arte, mas essa é outra história…

Referência Bibliográfica

JUNG, Carl G. O Homem e seus Símbolos. São Paulo, SP: Editora Nova Fronteira, 2008.

KIM, W. Chan e MAUBORGNE, Renée. A Estratégia do Oceano Azul Como Criar Novos Mercados e Tornar a Concorrência Irrelevante. Rio de Janeiro: Editora Campus Elsevier, 2005.

MINTZBERG, Henry; QUINN, James Brian; LAMPEL, Josef; GHOSHAL, Sumantra. O Processo da Estratégia. 4ª ed. Porto Alegre: Bookman, 2006.

NOGUEIRA, Adriana Florentino. Inovação Através da Criação de uma Nova Categoria. Disponível em http://www.ead.fea.usp.br/tcc/trabalhos/Artigo-Adriana%20Nogueira.pdf. Consultado em 22/11/2013.

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