por Walther Krause

A tragédia é o resultado de um evento que causa grande comoção negativa. As tragédias naturais costumam ser as de maior impacto, podendo matar até milhões de pessoas. Infelizmente, esta é uma realidade que teremos que conviver. Mas o que um tema tão triste se relaciona com o gerenciamento de projetos? Tudo… As melhores práticas podem ser aplicadas nas ações preventivas, antes do evento ocorrer, e nas ações de recuperação, após a tragédia. O resultado será um menor impacto nas comunidades afetadas e um retorno mais rápido à normalidade e com menores custos.

Os dois exemplos a seguir apresentam 2 tragédias recentes e importantes com resultados muito diferentes. Ambos os eventos não podiam ser evitados, pois foram ações da natureza.

A Tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro – 2011

“Chega a 911 o número de mortos na Região Serrana do Rio de Janeiro, desde a enxurrada de 11 de janeiro, de acordo com as prefeituras dos municípios mais afetados pelas chuvas do mês passado. Em Teresópolis há 382 mortos. Nova Friburgo registra 428 vítimas, enquanto que em Petrópolis já foram resgatados 72 corpos. Também houve 22 mortes em Sumidouro, 6 em São José do Vale do Rio Preto e 1 em Bom Jardim.”

Fonte: www.g1.globo.com 15/02/2011.

“Quase 3 meses após chuva na serra do RJ, estradas continuam precárias”

 Fonte: www.g1.globo.com 05/04/2011.

“Tragédia provocada por chuvas na Região Serrana completa três anos. Friburgo foi a única cidade que entregou até agora casas populares. Cidade já passou por grandes obras após a tragédia.”

Fonte: www.g1.globo.com 11/01/2014

Um estudo elaborado por Amarílis Busch e Sônia Amorim buscou respostas para entender o que aconteceu. As questões, como governança das ações, matriz de responsabilidade, liderança, plano de resposta à riscos, infraestrutura, comunicação, escopo, velocidade das respostas, etc., foram levantadas como possíveis ineficiências que possam ter ajuda a amplificar a tragédia. Todas as questões estão diretamente relacionadas ao gerenciamento de projetos. O fato de as ações de recuperação ainda caminharem lentamente demonstra que a situação não melhorou.

Terremoto seguido de Tsunami no Japão – 2011

“TÓQUIO – Às 14h46 (2h46 em Brasília) do dia 11 de março de 2011, uma sexta-feira, o Japão começava a viver uma das maiores tragédias de sua história. Neste exato momento, a costa nordeste japonesa sentiu o terremoto de magnitude 9 ocorrido na região. O sismo foi o quinto mais forte já registrado na história e o pior já ocorrido na nação asiática. O tremor ainda causou um tsunami que varreu a costa japonesa e destruiu milhares de casas – além de ter danificado reatores da usina nuclear de Fukushima, dando início à segunda pior catástrofe nuclear da história mundial. A tríplice tragédia deixou 15.853 pessoas mortas 3.283 desaparecidas, totalizando 19.136 vítimas – maior perda de vidas em um desastre desde a Segunda Guerra Mundial no Japão.”

Fonte: http://topicos.estadao.com.br/tsunami-no-japao

“Em algumas partes do Japão, o ritmo da recuperação dos danos provocados pelo terremoto e pelo tsunami de março deste ano é surpreendente, mesmo para um dos países mais desenvolvidos do mundo. “

Fonte: www.g1.globo.com 28/07/2011.

O Japão, após anos de lições aprendidas, estava preparado para terremotos e para tsunamis. Várias ações preventivas tinham sido implementadas e evitaram várias tragédias. O que ocorreu em 11 de março de 2011 foi bem acima do esperado. Um terremoto de grande escala ocorreu na costa próxima ao arquipélago asiático e gerou uma tsunami de força e tamanho extremos. Caso o país não tivesse preparado, o impacto seria ainda maior. Mas o Japão também estava preparo para responder rapidamente a eventos de grande magnitude, como o ocorrido. Um grupo de crise foi montado, criando um comando único. Todas as ações já estavam previstas e planejadas. As primeiras ações foram recuperar as vias de transporte e as comunicações, fundamentais para chegar rapidamente aos locais afetados, para integrar as ações e salvar vidas, muitas vidas. Dias depois, algumas das principais estradas, totalmente destruídas, pareciam novas.

O Gerenciamento de Projetos na Recuperação das Tragédias

O gerenciamento de projetos pode ser aplicado antes dos eventos, como ações preventivas, e depois, para a recuperação. As ações preventivas são projetos de infraestrutura com o objetivo de preparar a comunidade para resistir a eventos naturais comuns em sua região. A metodologia de gerenciamento de projetos a ser aplicada nestes casos são as melhores práticas para projetos de infraestrutura.

A recuperação das tragédias deve ocorrer através de um arcabouço com uma metodologia de gerenciamento de projetos adaptada para este tipo de situação. O modelo deve incluir a governança das ações, uma liderança centralizada, a matriz de responsabilidades, um plano de projeto (com todos grupos por assunto: partes relacionadas, escopo, risco, tempo, custo, qualidade, aquisições, comunicação, integração e recursos), o ciclo de vida (iniciação, planejamento, execução e encerramento), considerando pelo menos duas etapas – resposta emergencial imediata e resposta emergencial.

Existem alguns modelos prontos que podem ser usados como referência.

A Organização das Nações Unidas (ONU) possui um grupo especializado em gerenciamento de projetos que presta serviços de capacitação e apoio aos países que solicitem, com modelo adaptável a cada situação e comunidade. O grupo é conhecido como UNOPS (Sustainable Project Management Practice), com a liderança do brasileiro Ricardo Vargas.

O Project Management Institute Education Fundation, PMIEF, desenvolveu a Metodologia de Gerenciamento de Projetos para Reconstrução Pós-desastres (PMMPDR), traduzida para o português pelo PMI Rio de Janeiro. É usado em conjunto a parâmetros aceitos internacionalmente por órgãos de busca e salvamento e padrões de gerenciamento de projetos: UN (Nações Unidas) Sphere Handbook; Project Management Institute (PMI) PMBOK ® Guide.

A Associação para Governo Local do Sul da Austrália – LGA Local Government Association of South Australia, desenvolveu um manual de gerenciamento de projetos para recuperação de infraestrutura após desastres, que utiliza os mesmos princípios do modelo do Project Management Institute (PMI) PMBOK ® Guide.

A Organização das Nações Unidas (ONU) possui um outro grupo especializado na redução dos riscos dos desastres – UNISDR (United Nation Office for Disaster Risk Redution). Estabeleu um modelo utilizando as práticas do gerenciamento de projetos para reduzir os riscos (foco em ameaças) inerentes aos eventos que causam desastres. O modelo orienta os governos locais de como se prepararem para mitigar os riscos e atuar na redução dos resultados negativos dos desastres.

Conclusão:

O Brasil está certamente despreparado para atuar em desastres naturais, tanto preventivamente como após o evento, conforme os fatos dos últimos anos comprovam. A falta de organização e condições de atuar corretamente provoca gastos excessivos, grande ineficiência com desperdícios e espaço para corrupção. O resultado é muito dinheiro gasto e pouco benefício para a sociedade, que é penalizada com números elevados de mortos e feridos e com residências e infraestrutura insuficientes durante muitos anos após o desastre.

O caminho está na aplicação de ações de mitigação dos riscos de desastres, através de ações e projetos bem planejados, executados e controlados, e na capacitação e uso de melhores práticas do gerenciamento de projetos nas ações de recuperação após o desastre. Não é aceitável esperar surgir mais desastres graves para que os governos e sociedade se preocupem em agir. É preciso começar logo, pois são muitos munícios, estados e pessoas envolvidas. Cada esforço, mesmo os mais simples, podem reduzir consideravelmente o número de vítimas. É mais do que o suficiente para justificar todo o investimento.

Referências:

http://www.unops.org/

http://www.pmi.org/pmief/humanitarian/PDRM.asp

www.lga.sa.gov.au

http://www.unisdr.org/files/26462_guiagestorespublicosweb.pdf

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