por Ciro Mendonça

Nicolau Machiavel ensinava em sua obra monumental “O Príncipemanual de ação para exercer e preservar o poder”, que os líderes deveriam se esforçar para serem amados e respeitados, porém, se não pudessem ser amados, deveriam forçosamente ser respeitados.

Sociólogos que se debruçam sobre o tema liderança, debatem, incansavelmente, se a aptidão para liderar é um dote natural, que prescinde de treinamento, ou algo que pode ser apreendido através das técnicas de capacitação.

Os grandes líderes são movidos por extrema autoconfiança, mas costumam distinguir os momentos de agir, em contraponto aos momentos de prudência e reflexão. Possuem a clarividência dos limites entre a ousadia e a insensatez. Descortino e perspicácia são seus atributos naturais.

Seria tola pretensão tentarmos, num simples texto, aprisionar o perfil da liderança num espartilho, numa espécie de modelo acadêmico, haja vista a essência complexa da natureza humana. Líderes podem emergir de maneira súbita e inesperada, muitas vezes diante de situações de risco, em meio às sombras do presente para guiar equipes e reverter expectativas ou conduzir seu povo ao porto seguro no amanhã. Todavia, acreditamos que certas virtudes, princípios e valores estão frequentemente presentes na formação e caráter do líder e, longe de pretender esgotar a questão, passamos a discorrer sobre os que imaginamos mais relevantes.

Principais Atributos da Liderança

Coragem

Como afirmava Churchill, a coragem é a mãe de todas as virtudes porque, sem ela, todas as demais desaparecem diante do perigo. Dizem que o medo tem cheiro, por isso, os cavalos e cachorros sentem-no e derrubam ou mordem os medrosos. A história não registra a existência de liderança covarde e o exemplo mais forte de dignidade e coragem é a atitude confiante de Cristo diante do interrogatório feito pelo Governador da Judéia, Pôncio Pilatos. Como virtude que constitui a firmeza de propósitos, a coragem é considerada a principal dentre elas.

Sabedoria / Prudência

É uma das 4 virtudes cardinais. A sabedoria não está necessariamente associada à formação intelectual pois há inúmeros exemplos de sábios iletrados. Não é um conhecimento livresco, mas o conhecimento das atividades humanas e da melhor maneira de conduzi-las.

A sabedoria pressupõe instinto certo para saber escolher, o deliberar bem, tendo em vista o todo. A prudência leva o líder a escolher o que é melhor para a equipe. É, também, saber se comportar consigo mesmo e junto aos demais seres humanos. Tem a ver com a conduta racional, ou seja, a capacidade de bem dirigir os eventos, tanto pessoais quanto públicos. Prudência é a virtude que permite ao entendimento reflexionar sobre os meios que conduzem a um fim racional. Há uma sabedoria para conduzir a si mesmo e aos outros. A prudência exige reflexão e capacidade atencional, para examinar os juízos e as ideias, e, além disso, acuidade, para descobrir os meios mais hábeis.

Caráter

Numa época em que o debate sobre valores parece esquecido na vida pública, urge resgatar o senso de que valores, princípios e caráter das lideranças são fatores determinantes para o aprimoramento das instituições. Milton Campos dizia que o estadista tem “a posição de suas ideias e não as ideias de sua posição”. Assim, a liderança não deve ser oportunista e tem que ser fiel às ideias e não à carreira. Se necessário, deve abrir mão do poder, do emprego e da liberdade, na defesa de suas ideias. Não pode, nunca, perder a vergonha. Quem por medo se retrata, a exemplo do que ocorreu com o grande físico Galileu, perde o respeito dos que o admiram.

Capacidade de inspirar

A liderança é polo natural de atração e sua capacidade inata de inspirar as pessoas, cultivar relacionamentos e forjar alianças é tão importante quanto sua eficiência administrativa.  Não raro, é um arquiteto da esperança e, através de suas atitudes positivas e entusiásticas, suas escolhas e exemplos, acaba por personificar as aspirações e os valores que inspiram as pessoas para trabalharem motivadamente em busca do bem geral, compartilhando uma visão comum e um senso de propósito. Costuma ter seu valor reconhecido pelos liderados que expressam gratidão desinteressada mesmo depois de haver concluído sua missão.

Justiça

Virtude moral pela qual se atribui a cada indivíduo o que lhe compete. Consiste na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém, ou alguma coisa.

O senso de justiça é, entre outros fatores, um componente essencial, que pode ao ser percebido pelas pessoas criar um ambiente favorável para que os profissionais, do seu modo, doem o melhor de si, em busca dos resultados que as corporações precisam.

Cabe ao líder, zelar para que a justiça dentro das organizações seja praticada e as decisões não sejam baseadas em movimentos políticos, ganância, inveja, apadrinhamento, e, sim, por meritocracia, desempenho, onde os profissionais sejam justamente valorizados e reconhecidos por aquilo que entregam e se dedicam.

Ordem

D. Pedro I admirava a capacidade de José Bonifácio de traduzir ideias e visão em ação de governo.

Pragmático, assertivo e objetivo, José Bonifácio resolvia os problemas administrativos e políticos com destreza e competência. Quem confunde as coisas e desconhece prioridades não tem senso de ordem.

As coisas não estão naturalmente em seu lugar, daí a afirmação de São Tomaz de Aquino: “a ordem é as coisas nos seus lugares”. O líder deve ter competência para hierarquizar e selecionar. Cabe a ele a difícil e ingrata tarefa de, norteado pela justiça, escolher visando ao bem comum, ainda que desagradando os poderosos. Para gerenciar projetos complexos é preciso vigor, grau de organização extraordinário, cooperação e capacidade de conciliação. É síntese da ordem o provérbio oriental: “como meu pai negociava com poeira foi destruído por um golpe de ar”. 

Autoridade

A autoridade é fruto de conduta exemplar e é marcada por um olhar muito especial. O líder infunde e conquista gradualmente a admiração do grupo. Sua satisfação é contribuir e assistir ao sucesso da equipe da qual quer ser apenas parte. Deleita-se com a ascensão de seus companheiros. A vocação do líder é ser só arco. Sua equipe é a flecha que voa para o alvo.

Na Grécia antiga dizia-se que os olhos são as portas da alma. O jornalista Armando Nogueira escreveu que o olhar mata, fascina, fulmina e seduz. Não há líder de olhar esquivo. O olhar do líder é reto, limpo e direto.

A autoridade não se sustenta no berro do capataz, muito menos se espelha na fúria e crueldade de seus olhos que aterrorizam na circunstancialidade de seu poder. Ao contrário, a autoridade reside na voz pausada, na placidez e generosidade do olhar de quem carrega na alma a inabalável certeza da grandeza e dignidade de seus propósitos, mesmo quando confrontado nas horas graves. A competência funcional é dada pelo cargo, a autoridade é atributo pessoal, imantação misteriosa, temperada pela admiração e respeito.

Paciência

A paciência é a prima-irmã do autocontrole. O autocontrole diante da adversidade é essencial para transmitir à equipe um ambiente de segurança, onde as pessoas possam cometer erros sem medo de serem advertidas de forma grosseira. Se o líder perde o controle e grita com os comandados eles se tornam medrosos, abandonam a iniciativa e evitam se arriscar para não serem humilhados. A impaciência é uma das faces da estupidez. Uma equipe atemorizada evita levar notícias ruins para o líder e, consequentemente, ele demora muito a tomar conhecimento da verdade e isto, costuma ser fatal.

Há várias maneiras de fazer com que as pessoas se responsabilizem por suas tarefas, apontando suas deficiências sem ferir a dignidade delas. Isto pode ser feito de maneira calma, respeitosa e firme.

Generosidade

A generosidade é um traço essencial à liderança e está fortemente associada à capacidade de dar atenção, apreciar e incentivar as pessoas. A santa paciência de escutar os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo e até os chatos, que no lamento do filósofo Benedetto Croce “não nos deixam ficar sós e nem nos fazem companhia”. Está provado que quando o líder presta atenção às pessoas, a produtividade do grupo cresce.

O ouvir ativo requer esforço consciente e disciplinado para silenciar toda a conversação interna enquanto ouvimos outro ser humano. Erra quem pensa que o ouvir é um processo passivo que consiste em ficar calado enquanto outra pessoa fala. O que ocorre na maioria das vezes é que praticamos uma escuta seletiva, julgando aquilo que está sendo dito e buscando uma forma de abreviar a conversa ou direcioná-la de modo mais conveniente para nós. Essa identificação com quem fala chama-se empatia e demanda enorme empenho. O líder deve ter em mente que as pessoas querem mais atenção para o que dizem do que para o atendimento de suas reivindicações. Precisam lembrar, ainda, do que disse o grande filósofo norte americano William James: “no centro da personalidade humana está a necessidade de ser apreciado”.

Humildade

No dizer de Osíris Silva, que em 1969 liderou o grupo criador da Embraer, “o líder deve se desprender das algemas do orgulho, do egoísmo, da intemperança e da ambição”. A arrogância é uma pretensão desonesta porque ninguém sabe tudo ou tem tudo. Precisamos uns dos outros, mas os arrogantes e orgulhosos fingem que não precisam. Líderes arrogantes são um estrago para as pessoas. A humildade consiste em ser real e autêntico com as pessoas e despir-se de máscaras falsas.

Em conclusão e por estar perfeitamente sintonizada com o pensamento que tentamos transmitir neste texto, transcrevemos, a seguir, alguns trechos da entrevista concedida por Osíres Silva ao Jornal Infomoney de 16 de julho de 2016.

  • No passado os líderes mudaram o mundo e continuarão fazendo isso. Corporações e Governo devem ser os catalisadores do sucesso da Sociedade.
  • O homem gravita em cenários diversos: na família, na sociedade, no trabalho, na religião.
  • O lar é a escola das almas, sua arena de aprendizado maior, a oficina primeira do burilamento do caráter e nele são apreendidas as primeiras crenças, as virtudes individuais que, mais tarde poderão ser convertidas em virtudes institucionais pela atuação dos líderes.

Tal linha de raciocínio assenta-se nas conclusões do sociólogo francês Alexis de Tocqueville na mais clara e penetrante análise da relação entre caráter e sociedade jamais feita e descrita em seu livro Democracia na América. Tomando por base a obra de Tocqueville, Robert Bellah at al, afirma em Hábitos do Coração que uma das chaves para a sobrevivência de instituições livres é a relação entre a vida privada e pública, a forma pela qual os cidadãos efetivamente participam, ou não, da esfera pública.

  • A magia da transformação passa pela educação. Basta ver o que aconteceu com a China e a Coréia do Sul nas últimas décadas.
  • A habilidade social para apaziguar e motivar em ambientes hostis é mais efetiva que a agressividade. Augusto, militarmente incompetente, foi bem-sucedido na consolidação de um regime imperial estável, algo que desconcertou Julio Cesar e Alexandre Magno, que eram generais muito melhores. Os historiadores modernos costumam atribuir essa façanha à sua virtude de moderação e clemência.

 Referências

BELLAH, Robert Neelly; TIPTON, Steven M.; SULLIVAN, William M; MADSEN, Richard; e SWIDLER, Ann. Habits of the Heart: Individualism and Commitment in American Life. USA: University of California Press, 2007.

D`ÁVILA, Luiz Felipe. Caráter e Liderança: Nove Estadistas que Construíram a Democracia. São Paulo: Mameluco Edições, 2013.

GUIMARÃES, Ulysses. Rompendo o Cerco. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1978.

HUNTER, James C. O Monge e o Executivo: uma História sobre a Essência da Liderança. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Coleção: LP&M Pocket. 1ª edição. Porto Alegre: L&PM Editores, 2001.

SILVA, Ozires. “Estamos criando uma verdadeira tragédia para o nosso futuro”. In: InfoMoney, 26 de julho de 2016. Disponível em: http://www.infomoney.com.br/embraer/noticia/5321191/ozires-silva-estamos-criando-uma-verdadeira-tragedia-para-nosso-futuro?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_content=noticia&utm_campaign=canal_mercados. Consultado em 13/01/2017.

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