por Samir de Oliveira Ramos

Eles se viram pela primeira vez na praia do Farol da Barra, no meio daquela gente toda que admirava a super lua de 82.

De lá pra cá, foi um super tempo juntos e um super relacionamento que transmutou as insípidas vidas daqueles dois estudantes de engenharia.

Nesse lapso, as réguas “T” para linhas retas foram substituídas por textos tortos a decorar; as roupas e suéteres de cores desbotadas, abotoadas até o pescoço, deram lugar a figurinos os mais variados, quase vivos, pulsantes e cheios de expressão; e eles se tornaram descolados e construíram suas próprias lendas.

Culpa da super lua, eles diziam.

A definição de felicidade no dicionário parece incompatível com o contexto planetário dos dias atuais: “estado da pessoa feliz, satisfeita, alegre, contente: sensação real de satisfação plena; estado de contentamento”. Como apresentar tal estado de espírito dentro de um ambiente social que mais parece uma fábrica de energia negativa e stress? Surpreendentemente algumas atividades que o indivíduo desenvolve, mesmo não sendo de lazer, o acalmam e o energizam de forma extremamente positiva. A conclusão é que é possível ser feliz mesmo em meio a um ambiente caótico. Mas como?

As mãos sem adornos e adereços, com unhas lixadas e, por vezes, encapsuladas em finas camadas de esmalte incolor, apropriaram-se de muitos anéis e pulseiras que justificavam unhas compridas e multicoloridas para as mais que perfeitas baladas de violão ou – pasmem! -, cítara.

Primeiramente é preciso entender que alguns fatores psicológicos, previstos por Abraham Harold Maslow em sua hierarquização das necessidades humanas, como a admiração e o respeito daqueles que estão à sua volta, ou a sensação de aceitação social dentro de um grupo de convivência, são maiores geradores de felicidade do que outros mais efêmeros, como posição de poder, recursos financeiros e bens de consumo. A empolgação, a euforia ou o entusiasmo não podem ser confundidos com a satisfação, o bem-estar, ou mesmo com o bom humor.

Mas a metamorfose digna de Kafka não parou por aí.

Através de uma espécie de transfusão alquímica, milhões de raios, superlativos lunares, refletidos na vastidão abismal do mar baiano, foram drenados através daqueles olhos ingênuos, recém-saídos da puberdade. Suas línguas, antes descoradas e tímidas, deram lugar a aríetes da cor de prata. As pupilas desfocadas e vacilantes, embaçadas e aprisionadas por óculos-fundo-de-garrafa, foram para sempre dilatadas, tornando-as como as dos felinos e das águias. Um super olhar se formou, como resultado da transfusão, revelando gosto apurado e olfato quilométrico.

Não, não poderiam ser mais os mesmos. Um fundo abismo se formou entre o que eram e o que seriam a partir daquele momento na praia.

O mesmo aconteceu com as mentes do casal desajeitado: a luz amarelo-acinzentada da super lua soteropolitana produziu, naquela noite, sinapses nunca antes imaginadas. Com os intensos feixes de luz, embaralhados de forma caótica pela agitação imprevisível das marolas, elétrons dantes subenergizados, atingiram camadas superiores, produzindo reorganização na matriz quântica, jogando fora mágoas, inseguranças, registros de infelicidade e toda a parafernália poluidora de mentes. Uma sensação de renovo inspirou-os a respirar mais devagar e de forma mais profunda, sorvendo a umidade da cena marítima.

A cidade parecia agora estreita demais para aquelas vidas renovadas pelo satélite.

Em pé, de mãos dadas, afundados na areia até os calcanhares, tendo a multidão de desconhecidos como testemunhas, fecharam os olhos e experimentaram pela primeira vez a conexão com o divino. Uma sensação de pertencimento planetário colocou-os, de forma única, no contexto de suas vidas. Missão e valores pareciam agora claros como uma cena iluminada pela luz diáfana de um candeeiro, onde um sábio apontava, com o indicador, trecho de milenar pergaminho. Sim, era um batismo. E eles sabiam disso.

Segundo o novo testamento da bíblia, no sermão da montanha, Jesus de Nazaré descreveu nove características pessoais que um indivíduo deve buscar para alcançar a verdadeira felicidade. Estes atributos, conhecidos pelos religiosos como Bem-Aventuranças, poderiam ser traduzidos em termos atuais da seguinte forma:

1. Os humildes de espírito – os que não se consideram melhor que ninguém;

2. Os que choram e se compadecem – os que têm empatia e respeito com os menos favorecidos;

3. Os mansos – os pacíficos;

4. Os sedentos de justiça – os que trabalham por iguais oportunidades e recompensam pelo esforço e pelo mérito;

5. Os misericordiosos – os que perdoam e não guardam mágoa;

6. Os limpos de coração – os que não prejudicam terceiros para auferir ganhos pessoais;

7. Os pacificadores – os pacifistas e mediadores das disputas;

Os perseguidos – os que não se deixam abalar pelos desmandos do poder;

8. Os tolerantes – os que não estão voltados ao passado, usando seus dons na construção de um futuro melhor.

As mãos eletrizadas pareciam agora capazes de segurar, firmes, as rédeas da carruagem de suas vidas, tracionada por sete fogosos corcéis negros, que representam os sete pecados capitais. Controlá-los – principalmente nas curvas da vida, geralmente feitas em alta velocidade -, significa viver. Um pequeno descuido e a carruagem pode tombar e a viagem se encerrar de forma prematura. E eles sabiam disso: os cavalos de dentro da curva devem correr menos que os que estão por fora; só um controle apurado dos pulsos pode estabelecer o melhor conjunto de forças que anulará a força centrífuga que os problemas e dificuldades representam, e que puxa a carraria para fora da estrada.

O casal de filhos veio nesse galope. O som dos cascos dos cavalos era, por vezes, a única música que ouviam por léguas e léguas.  A carruagem corria, o tempo voava e eles se revezavam no controle da diligência. Sentiam-se plenos, operativos e felizes, apesar de não saberem explicar o motivo dos seus cabelos ao vento.

A viagem fez o hábito e o hábito produziu contentamento. Cuidar dos cavalos, da carruagem, preparando-a para os diversos solos e climas, tanto para os desertos quanto para os vales férteis, os fez mais humanos. Sabiam esperar e também acelerar. Sabiam fugir e também enfrentar. Afinal, quem não tem medos?

Na verdade, uma pessoa típica da cultura ocidental está sempre perseguindo alguma coisa material: uma promoção no trabalho, um carro novo, a realização de uma viagem de férias inesquecível. Esta procura induz a crença de que quando este evento acontecer a pessoa será feliz. E no início, realmente há uma grande euforia, tanto no processo de obtenção, como no alcance do objetivo. Uma pesquisa feita pela Northwestern University mediu os níveis de felicidade de pessoas comuns, comparando-os com os de outras pessoas que haviam ganho prêmios na loteria. Os pesquisadores ficaram surpresos ao descobrir que os índices de felicidade de ambos os grupos eram praticamente idênticos. A noção equivocada de que grandes eventos na vida determinam a felicidade é tão predominante entre as pessoas, que os psicólogos deram a ela um nome: viés de impacto. A realidade é que a felicidade baseada em eventos, é passageira. A duradoura, se ganha através de hábitos.

Hoje, muitos anos depois do acontecido, mais uma vez uma super lua é anunciada nos jornais. Eles sabem muito bem o que isso significa. Será que o portal vai ser aberto novamente e a onda quântica inundará suas vidas como uma fogueira?

Devido a compromissos pessoais, não podem viajar para Salvador e reproduzir as condições de outrora. Nem poderiam: não são mais os mesmos.

– Bem, nós não podemos estar lá, mas talvez possa acontecer com nossos filhos. – disse ele, pensativo.

– Como assim? Você acha isso possível? Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. – retrucou ela. – Além disso, não foi apenas o local que determinou o fenômeno, mas uma conjunção de fatores. – concluiu.

– Por via das dúvidas, vamos embarcar os garotos. Isso é importante. Vai que… – insistiu ele.

O casal de filhos desembarcou contrariado no aeroporto Luís Eduardo Magalhães, no meio da tarde.

– Eu preferia ir para Machu Pichu. – resmungou a caçula.

Do aeroporto até a Praia do Farol da Barra foram longos cinquenta minutos. Segundo o conselho dos pais, ficariam cerca de duas horas e depois iriam para o hotel.

Um típico dia nordestino chegava ao seu final e a multidão começava a chegar para ver a super lua atingir o perigeu. No meio deles, a jovem dupla carioca tentava equilibrar o coco, o canudo e a mochila, enquanto se deslocava com dificuldade na areia fofa, a fim de buscar o melhor local para as fotos. Enquanto isso,  no Rio de Janeiro, apesar da meteorologia não ser favorável, a mesa à beira da piscina estava arrumada desde cedo, e o vinho e frios buscavam a temperatura ideal na geladeira. Um binóculo antigo, da época em que o pai dele ia ao Maracanã assistir às diabruras de um tal Garrincha, jazia pendurado no armador de rede, na varanda.

Tudo estava pronto, do Marapendi ao Farol.

O sol, como sempre, se pôs de forma espetacular, mas seus raios de adeus só foram visíveis em Salvador. As fotos de celular alcançaram os aparelhos dos pais quase imediatamente. Eram os primeiros registros da terra do descobrimento. Encostados na parte de trás do sofá, diante da porta que dava para varanda, o casal observava as densas nuvens e a fina chuva que caía na capital fluminense. Estavam ansiosos. O que sucederia? A cena se repetiria? A imprevisibilidade dos fatos os alegrava e excitava. Fotos da área da piscina também cruzaram as redes rumo à capital baiana.

– Deu ruim! – digitou o primogênito, em resposta à chuva carioca.

– Vamos aguardar. Deus tem os seus mistérios… – digitou o pai de volta.

As primeiras fotos da super lua cruzaram os céus da Bahia e atingiram a residência oficial do clã no mesmo instante em que os primeiros frios eram servidos.

– Mãe, o coco aqui é bem maior e mais doce que o daí. – digitou a caçula, exibindo a cara assustada ao lado do imenso fruto. – É do tamanho da super lua! – acrescentou, com um smile.

Os pais orgulhosos, cheios de contentamento, celebravam a vida com risos e muitos kisses traduzidos em impulsos elétricos e transmitidos via Embratel.

De acordo com o dr.  Travis Bradberry, em seu artigo “11 Hábitos de Pessoas Extremamente Felizes”, a pessoa realmente feliz tem os seguintes hábitos:

1. Desacelera para apreciar os pequenos prazeres da vida;

2. Exercita-se;

3. Gasta dinheiro com outras pessoas, e não só consigo mesma;

4. Cerca-se das pessoas certas: positivas e de bons hábitos;

5. Encara qualquer situação de forma positiva;

6. Dorme o suficiente;

7. Tem conversações mais profundas, evitando envolver-se em fofocas e julgamentos;

8. Ajuda os outros;

9. Faz sua parte de esforço para ser feliz, trabalhando duro, e tentando sair da rotina;

10. Faz boa parte das coisas, pessoalmente;

11. Tem uma mentalidade de crescimento, mantendo sempre a mente aberta ao novo.

Assim, de forma sutil e singela, uma atmosfera de pureza  e alegria se estabelecia e inundava, ao mesmo tempo, a residência paterna e o pedaço de areia filial, numa próspera conexão privada, à velocidade da luz, que encurtava distâncias e produzia felicidade. Se milhões de raios não inundavam, como antigamente, os olhos do maduro casal, de energia quântica e benfazeja, a fugidia luminância das fotos lunares enviadas pelos amados filhos, refletidas nos óculos para vista cansada, eram motivos de satisfação e tinham a mesma importância das primeiras imagens do homem na lua.

Em suma, pessoas felizes concentram seus esforços no que podem controlar e mudar para melhor. O que elas não podem dominar, elas aceitam, com a esperança de que um dia poderão. A parte final da música O Homem no Espelho (The Man in the Mirror), de Michael Jackson, diz que: “estou começando com o homem no espelho; estou pedindo que ele mude seus hábitos; e nenhuma mensagem poderia ser mais clara: se você quer fazer do mundo um lugar melhor; dê uma olhada em si mesmo e, então, mude”.

Para a maioria dos que conhecem essa história, não houve milagre. Os garotos, nas conversas da volta, não contaram nada que se comparasse à psicodélica experiência dos pais; os céus da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, encoberto e acinzentado, ausentaram-se do maravilhoso espetáculo lunar. A mesa arrumada à beira da piscina permanece inalterada. O binóculo, continua pendurado à espera de novo evento.

Restou apenas um hábito de bater papo ao redor da piscina, com os pés dentro d’água, em noites de lua cheia.

O casal, que hoje dá palestras em importantes institutos, no Brasil e no exterior, quando indagados pelos alunos sobre o que é felicidade, não se sabe o porquê, sempre projetam no datashow a mesma resposta: a foto de uma menina e um coco do tamanho da lua.

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Sob a Ótica de Gestão de Pessoas

Primeiramente é importante frisar que, apesar de uma contrariedade inicial, o casal de filhos enviado pelos pais estava feliz, contente. O envio de fotos e as frases de efeito demonstram isso. Pelo ato de obediência, eles gozavam da admiração e respeito dos pais. O pressuposto de Maslow estava atendido. Já os pais, entenderam a mensagem de humildade dos filhos que, mesmo achando chato toda aquela história, discerniram que era algo importante para os pais. Submeteram-se a uma história que não era deles e acabaram por produzir uma nova história, com desfechos diferentes.

O principal satélite da Terra, em sua expressão máxima, como é o caso de uma super lua, tem seus efeitos já conhecidos também maximizados. E são esses efeitos que geram a mudança radical pela qual o jovem casal passou em 1982. O texto, de forma lúdica, exibe os efeitos como causa, mas pode-se inferir, ao se retirar esse nexo causal fictício proposto pelo escritor, que a principal causa da percepção de felicidade vem do próprio homem, do seu interior, que busca mudanças ou se propõe a elas de forma lúcida e como protagonista. Neste sentido as bem-aventuranças do sermão da montanha esclarecem de forma inequívoca tal afirmação. Segundo o texto milenar, quem busca de verdade as atitudes citadas, de forma intensa e realista, sem encantamentos lunares e a despeito de qualquer hora ou lugar, pode ser considerado um bem-aventurado, ou, de outra forma, a bem-aventurança o alcançará, pois somente um ser preparado e transformado, poderá recebê-la e vivê-la em sua plenitude. É como o desabrochar de uma flor, que acontece de dentro para fora. Uma vez desabrochada, a flor encanta por sua beleza e, ao mesmo tempo, se beneficia de sua condição, recebendo mais raios de sol e exercendo sua utilidade em plenitude. Neste sentido, o “viés de impacto” dos psicólogos, ou seja, a noção equivocada de que grandes eventos produzem felicidade humana, é jogada por terra pela simples existência fugidia uma flor, um ser vivo menos complexo que o homem. Sua breve vida é plena de significado e significância, calcada no ser e não no ter. A sua atitude reacionária e duradoura é baseada num único hábito: ser flor. Sobre isso nos ensina Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Alberto Caeiro, no poema “ Se às vezes digo que as flores sorriem”: Se às vezes digo que as flores sorriem / E se eu disser que os rios cantam, /Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores / E cantos no correr dos rios… / É porque assim faço mais sentir aos homens falsos /A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. /Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes / À sua estupidez de sentidos… / Não concordo comigo mas absolvo-me, / Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza, / Porque há homens que não percebem a sua linguagem, /Por ela não ser linguagem nenhuma.    Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXXI”.

 O poeta lusitano, em seu desabafo, toma para si o posto maior de intérprete da natureza, mas se julga impotente diante da estupidez de sentidos do homem, que não entende a linguagem da natureza, que não é linguagem nenhuma. Assume-se ninguém diante da tradução da linguagem inexistente e ao mesmo tempo classifica o próprio homem como ninguém, por não ressoar na mesma frequência os elementos naturais que o compõem, incapacitando a identificação e a linguagem. Uma questão metafísica puramente existencial, que impede a legitimação da flor e do riacho (para o homem) e do próprio homem. Em suma, um ser incapaz de reconhecer a beleza  e a profundidade da natureza – em linguagem e essência – não tem condições de este se desvinculou dela pela ilusão ontológica de ter (consubstanciado na proposta de ter conhecimento, ao comer simbolicamente o fruto da árvore do bem e do mal), perdeu-se em seu próprio deslumbramento, poluindo o riacho sobre o qual sua face deveria discernir o seu reflexo. Agora, a canção do Michael Jackson, em sua linguagem pop, não consegue ser linguagem verdadeira, como a do poeta português. Nenhuma linguagem alcança surdo-cego-mudos. Neste sentido, estão impossibilitados de se avaliar e mudar seus hábitos.

 

A pressa imposta pela vida moderna despreza os detalhes que fazem a diferença, que nos tornam mais humanos. A família carioca descrita no conto conseguiu entender que um super evento como a super lua é “super” por um momento, pode até ser modificador, mas é nada diante do resto de suas vidas e da plenitude das coisas simples.

Referências

BRADBERRY, Travis. “11 Habits of Supremely Happy People”. In: The Huffingtonpost. Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/dr-travis-bradberry/11-habits-of-supremely-ha_b_10170586.html. Consultado em: 07/11/16.

CAEIRO, Alberto. “Se às vezes digo que as flores sorriem”. In: Jornal de Poesia. Disponível em:  http://www.jornaldepoesia.jor.br/fp236.html. Consultado em 01/12/2016.

JACKSON, Michael. The Man in the Mirror. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=_8kIoYzwlRg. Consultado em 07/11/2016.

MATEUS 5. Bíblia Online. Disponível em https://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/5. Consultado em 07/11/2016.

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